Does it make any sense?! No? So, welcome.
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Jul 08
publicado por Andi, às 23:16link do post | comentar

Tic-tac tic-tac tic-tac... Olhou de novo para o relógio que pertencera ao bisavó que dera ao seu avó e que dera ao seu pai, sempre na ocasião da partilha de bens, após a sua morte. O pai, porém deu-o quando partiu para o Ultramar, de certa forma foi também quando faleceu. Teria ele a consciência de que não voltaria intacto como havera partido? Que seria lembrado como um herói por ter regressado salvo de uma emboscada em que mais ninguém havera sobrevivido? Não sabia, e o pai nunca lhe falara nisso. Aliás, o pai nunca falava sobre nada, era como estivesse realmente morto. Pelo menos os mortos deixam saudade da sua companhia, os vivos-mortos não.

 

Um silêncio pairava sobre a sala, denso, quase palpável como nevoeiro em dia de morrinha. Pelo menos era assim que a sua avó dizia. Um silêncio ensurdecedor. Talheres tiniam, conseguia-se ouvir perfeitamente o sorver da sopa verde e pastosa por parte dos mais novos, o barulho do desassossego. Contudo, nada para além disso se ouvia. E isto era nada, portanto o silêncio estava ali presente, irrefutavelmente. Misturava-se com os objectos da sala, as cadeiras e a mesa de madeira escura envernizada, com alguns arranhões, apesar dos esforços da sua rica mãezinha em dar óleo nelas todas as Primaveras, numa luta infindável com o pó e o aspecto baço e desinteressante de tudo o que os rodeava. Infiltrava-se na carpete castanha, cor predominante ali, cor de terra, donde lhes provinha o sustento.

 

Cinco minutos passados. Tinha de se levantar e ir dormir. Eram nove horas da noite. Estava escuro lá fora. Um escuro húmido e friorento, que dava um arrepio na espinha, como se uma donzela lasciva se tratasse a instigá-lo a fazer coisas que não deveria fazer. Deveria resguardar-se desse escuro demoníaco. Levantou-se vagarosamente, tentando não arrastar a cadeira, e sem uma palavra encaminhou-se ao seu quarto e dos seus seis irmãos.

 

Não era necessário dizer nada. Estava tudo destinado a ser assim. Aliás, se dissesse algo, isso sim não seria agradável. Vestiu o pijama dessa semana, para depois a mãe lavá-lo e usá-lo e usar na semana após a outra.

 

Não lavou os dentes. Não era seu costume, se bem que o dentista o advertiu acerca disso.

 

Os lençóis davam uma sensação de frescura apaziguadora. Precisava disso. Tentou lembrar-se...Há quanto tempo tinha ido ao dentista? Não conseguiu lembrar-se, poderia ter sido ontem, ou há vinte anos atrás.

 

A verdade é que ele tinha 35 anos  e de nada disto se apercebia, a persistência das horas fazia com que tudo se tornasse igual, e monótono, nada que diferencia-se, nada que valesse a pena marcar a data poderia ser encontrado na sua vida. Só se lembrava do primeiro dia que ajudou o pai na terra. Ajudou, como quem diz, o pai observava-o a cavar a terra, como um menino que pela primeira vez despe uma rapariga, à pressa, com um nervoso miudinho de quem quer provar que é homem, quando apenas sente-se um miúdo que gostaria de voltar para debaixo das saias da mãe. A perna inexistente do pai ainda lhe fazia confusão na altura. Passados tantos anos, esse dia repetiu-se sempre. Todas as horas do dia sabia o que teria de fazer, o que iria acontecer. Efeitos da persistência das horas.

sinto-me: Féérias.....

Em primeiro lugar quero pedir as minhas sinceras desculpas por não aprecer por aqui há tanto tempo :(
Depois, e principalmente, dizer que é sempre uma surpresa ler-te, este pequeno conto, está perfeito. Quase se pode tocar a desolação deste homem/rapaz.
Muito bom mesmo.
Ahhhhh e a mudança de visual, está fa-bu-lo-sa
Beijinho
meldevespas a 22 de Julho de 2008 às 10:23

Obrigado, já sentia a falta dos comentários sempre bem elaborados xD

Eu também tenho faltado com regularidade em aspectos de blogosfera, até tenho lido os seus contos, deliciosos como sempre, mas comentar, já fico com uma acrasia tal que não dá :/ De qualquer forma, estes dias tive meia desligada, mas voltarei ;)

Ah, pois o aspecto do blog, nunca fui boa nisto,portanto, um aspecto predefinido para mim está bom, o que mais me importa é o conteúdo. ;)
Beijinhos*
Andi a 23 de Julho de 2008 às 21:41

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