Does it make any sense?! No? So, welcome.
02
Nov 09
publicado por Andi, às 21:12link do post | comentar

Olhou para o homem espantada e nada disse, nada tinha para dizer, não sabias as Palavras, começava a duvidar de alguma vez ter sabido, tinha-se intrometido na conversa deles, no seu espaço, e isso era algo que a envergonhava. Engraçado que ela não conhecesse as Palavras, ela que procurava pela evidência da possibilidade da genuidade, do sorriso verdadeiro, da felicidade profunda e fugaz, momentânea, como só a verdadeira felicidade pode ser. As Palavras... Teria que se aplicar mais no seu projecto, mas tanto se interpunha no seu caminho, deixava-se levar pelos pequenos pormenores, divagava um pouco às vezes, mas os últimos devaneios deixaram um espaço e um tempo para pensar no que deveria fazer, para analisar verdadeiramente o seu progresso no projecto.

 

 

"Sei que me estava a observar."

 

"Não o quis fazer. "

 

"Não me vai pedir desculpa?"

 

"Não o conheço. Nada sei sobre si, provavelmente já me acotovelou na rua, enquanto passava apressado para a sua reunião executiva, ou é meu vizinho e passa o dia a bater na minha parede pela música que ouço, se calhar já me viu cair na rua e não me deu a mão. Deveria desculpar-me?"

 

"Não. Estou farto de desculpas. Não me apresentei, mas também não o farei. Não voltarei a este café tão cedo. Ficou tingido por sentimentos negativos."

 

 

Não sabia o que dizer (mais uma vez) ao estranho. Olhou para o lugar que ele deixara vago e reparou que a mulher já tinha ido embora. A sua atenção foi atraída pelos odores doces do café, os doces quentes que saboreava imaginariamente, o sabor ácido do café feito pelo dono pequeno e gorducho, tudo se misturava numa sensação agradável que a fazia querer ficar um pouco mais só para conhecer quem estava no café, quem trabalhava ali, no final de contas, quem gostava de lá ir. Esperava algo diferente das pessoas, ou melhor, esperava algo, pois aquele ambiente despertava algo natural, não mecanizado (como era tanto frequente).


"Ela foi embora, eu sei."


Continuava ele,


"Era a minha mulher. Era. Divorciamo-nos há pouco tempo, nem sei como tudo se passou. Sinto-me confuso agora. Eu sei que parecíamos mesmo chateados, mas já fomos felizes, mesmo felizes. Mas não a maço mais. Até um dia, no aperto da rua, ou lá no prédio quando fizer demasiado barulho, ou mesmo quando cair. Irei lembrar-me de si, não se preocupe."


"Espere!"


Uma ideia um pouco maluca e imprudente rasgou-lhe a mente. E se conhecesse aquele homem, e se ele lhe contasse a sua história, se fosse realmente verdade, que ele um dia tinha sido Feliz. E se? Eram demasiadas suposições, mas aquele ambiente, o seu estado de espírito disse-lhe que deveria arriscar. Porque não?


Ele, que já se confundia entre as poltronas de veludo coloridas, que parecia meio esfumado entre os vapores da canela e a densidade das conversas dos frequentadores do café. Ah, o café, deveria voltar ali mais vezes, deveria dizer a ele para...


"Venha cá mais vezes, não deixe de vir. Pode contar-me a sua história, não me maçará, eu ouvirei as suas histórias no Dia em que foi Feliz. Se não vier será como passar pela rua vendo-me caída e não me dar a mão, em tudo igual à primeira vez, excepto o facto que me conhece, a indiferença conhecida é a que magoa. Venha, num dia qualquer. Num dia."


Pulou da sua cadeira, e afastou-se do Café das Letras. Definitivamente iria voltar ali. Algumas descobertas mereciam tornar-se num hábito rotineiro, numa parte de nós, o que não acontece muitas vezes.


Naquele dia solarengo, em que de facto o tempo coincidia, raro acontecimento num desencontro quase eterno do tempo e do meu tempo, do tempo dela, hoje era apenas um daqueles dias. Hoje é.

 

sinto-me: optimista
música: Save Tonight - Eagle Eye Cherry

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