Does it make any sense?! No? So, welcome.
16
Jan 10
publicado por Andi, às 14:01link do post | comentar

O escuro instalou-se na sala. Ela estava sozinha nela, pelo menos assim o pensava.

 

"O único medo que os Homens têm realmente é de um quarto escuro", haviam-lhe dito, e era verdade. O terror propagava-se pelo seu corpo numa espécie de tremor crescente, que se tornava num espasmo quase que religioso a uma divindade antiga, o seu corpo baloiçava, as mãos enconstadas contra o seu peito pediam perdão pelo que não havia feito antes, o que havia feito não lhe dava remorsos, eram os seus projectos por acabar que a angustiavam, a falta de sentido da sua não existência...

 

Pensamentos sombrios como o quarto perpassavam-lhe pela mente. O escuro conferia uma clareza de pensamentos que nunca antes havia tido. Era assustador. Nestas ocasiões os seus espasmos aumentavam, ficava com dificuldade em respirar, a simplicidade com que via o que tinha sido a sua vida, e quão insignificante tinha sido, e como gostava de alterar isso, mas permanecia no escuro onde era possível perceber isso, mas nada era possível fazer. Um paradoxo instalou-se, sabia que se voltasse para a luz, não teria essa lógica imperturbável, não conseguiria fazer o que deveria.

 

Os olhos dela, ainda abertos, com a pupila dilatada fecharam-se, e, por momentos a sala ficou menos escura.

Faltam 151 dias para o concerto.

música: Black - Pearl Jam

18
Out 08
publicado por Andi, às 22:09link do post | comentar

O vizinho do apartamento da frente preparava-se para sair. Casaco castanho, calças pretas, camisola preta também, um guarda-chuva preto na mão, e um ar de cansaço estampado no seu rosto velho e enrugado. Barba por fazer de há uns dias. Cabelo desgrenhado. Estava mais débil do que há uns dias. Tinha de saber porquê. Ainda há cinco semanas e meia, às sete horas da noite, havia chegado uma ambulância a sua casa. Lembrava-se bem desse episódio. Piada dizer isto. Lembrar-se bem. Não havia nada que ele não quisesse lembrar e não o conseguir. Enfim, isto não se tratava dele. Tratava-se do vizinho da frente. António Morais, de nome, 57 anos, viúvo e vive apenas com um gato peludo e curioso, inclusive já tinha ido ao seu apartamento algumas vezes. Três, para ser preciso. Duas vezes no mês de Janeiro de há dois anos atrás e uma outra vez em Setembro do último ano. Não tinha nada contra animais, mas não estava habituado a ter companhia (pelo menos tão próxima), portanto esperava que o gato não voltasse ao seu apartamento tão rapidamente.

 

Voltando ao seu vizinho, o Sr. António, que agora fechava a porta antiga do seu prédio, cicatrizada por muitos defeitos imputados ao longo dos anos, e já um pouco torta, aliás em tudo semelhante a ele, tinha um ar diferente. Não sabia dizer porquê, e aliás algo deveria ser diferente dos outros dias, porque ele nunca saía de casa a esta hora. Estaria a ver o canal 7 da televisão até pelo menos às dez horas da noite. E ainda eram oito. Isso deixou-o pensativo. Lentamente, pé ante pé, lá se dirigiu o seu vizinho, rua abaixo até um destino desconhecido, pelo menos para ele, que observava. Agora já só conseguia vislumbrar uma silhueta, causada pelas luzes estranhas da rua, e que adulteravam o seu vizinho, diria que seria outra pessoa, talvez fosse. Talvez as pessoas se transformassem às escuras, confirmando aquelas histórias do papão que todos ouvimos quando somos novos. Provavelmente até mudam. Todos mudamos. A vida é uma inteira mudança, nada dura pouco nem muito para que possa ser absorvido de maneira correcta. A não ser pela memória. Ela é a única que pode comprovar a nossa existência. Não a nossa existência como seres humanos, tal como os outros animais. Mas a outra existência.A existência que todos achamos que temos, mas que poucos têm, a existência que importa realmente. Qual é ela? Não sabe. Ainda. Espera vir a saber.

 

 

Nesta altura já nem vê o vizinho apenas a rua vazia de noite ou de qualquer outra coisa humanamente visível. Tem piada, quando vivia na sua aldeia, as ruas continham algo, algo substancial, palpável, como se outro ser estivesse sempre lá, não deixando as pessoas sozinhas nunca. Contudo na aldeia era tudo um pouco monótono. Precisava de ritmo, movimento. Uma espiral de sensações e experiências que o arrancasse do torpor que vivia. Acabou por conseguir, em parte. Mas ainda buscava algo.

 

Um cheiro a café invadiu-o. Forte. Devia vir do apartamento superior, de vez em quando eles faziam café. Gostava do cheiro, aspirava-o lentamente, inspirava e expirava devagar, enquanto o cheiro persistisse. Mas não gostava de beber, sentia-se desiludido perante aquele sabor, quando comparado ao olfacto. Não lhe sabia ao mesmo, sentia-se sempre ludibriado. Não gostava disso.

 

Acabou por passar o cheiro. Então tomou o chá que tinha à sua berma no parapeito da janela. Sim estava sentado na janela, com as pernas balançando no lado exterior. Mas morava no rés-do-chão, não haveria problema se caísse, mesmo que quisesse que isso acontecesse. Enfim bebeu o chá golo, por golo. Esperando algo que acontecesse ali, que lhe despertasse os sentidos, arrepiasse os cabelos, abrisse a boca de espanto, ou trincar a língua de anseio, qualquer coisa. Esperava, observando.

 

 

sinto-me: doente (mesmo)

08
Set 08
publicado por Andi, às 23:57link do post | comentar | ver comentários (2)

A água encontrava-se límpida e fresca. Gostava de ter os seus pés ali mergulhados. Pés pequenos, largos e até há pouco tempo sujos de terra, por andar descalça, tinham uma pele grossa e uma cicatriz peculiar no pé direito. Tinha espetado o pé em algo quando pequena, não se recordava. Pequena. Ah! Dizemos nós, ela não pensa em si como pequena, ela já é quase uma mulher, uma adulta. É responsável, já vai à escola, já ajuda os pais, já cuida da irmã pequena!

 

Mas a sua imagem de ternura com as pernas pendentes no muro, mergulhando os pés na ribeira, naquele fraco caudal que passava entre aquelas encostas pouco inclinadas, mas repletas de vegetação exuberante, provocante ao olhar e a toda a conjugação sinestésica do nosso ser, não deixava espaço para divagarmos ou levantarmos suspeitas à sua idade, à sua desenvoltura. Apesar de tudo, era ainda uma criança! Poderíamos deduzir isso das suas trancinhas negras de menina doce, do seu vestido antigo e velho, mas lavado incessantemente pela mãe, que agora se encontrava um pouco sujo, pois o sol já se estava a deitar deixando ainda um pouco de luz para podermos ver tudo como se de um sonho se tratasse, e e ela brincara todo o dia, pela sua baixa estatura... Mas eram os seus olhos que denunciavam a sua infância. Os olhos castanhos doces, como se de chocolate se tratasse, ingénuos ainda e que sonhavam fazer grandes feitos! Olhos já com um pouco de miopia, é certo, mas olhos de criança, ainda.

 

 

Que verborreia já aqui vai, e ainda não dissemos nada, apenas expusemos o que pensávamos. Que pensamentos férteis, sem dúvida! Ela, no entanto sentada não pensava, ou melhor pensava melhor do que nós todos,  não é que não entendemos o seu pensamento! O silêncio. Mirava um cerrado à sua frente. Descontraidamente, com o corpo inclinado para trás e as mãos apoiadas na berma do muro pedregoso e frio. 

 

 

Bloqueei. Não consigo encontrar mais nada para dizer perante esta imagem da menina à beira da ribeira, e tudo o mais envolvente. Acho que fico por aqui.

 

 

 

Que deprimente! Não consigo abandonar uma imagem assim desta forma reles e vulgar. Fecho os olhos durante algum tempo e depois voltarei a olhar! Talvez assim a menina já lá não esteja, e seja apenas uma simples ribeira no seu curso natural e monótono.

 

 

 

 

 

 

 

 

Está igual!! Novamente!

 

 

 

 

 

 

 

 

Olha! Que está ela fazer? Está a atravessar a ribeira! Menina louca, está a molhar-se completamente, vai ficar doente. Se ela ainda cai... Levanto um pouco mais os olhos e vejo outros olhos castanhos doces e ingénuos a olhar igualmente para a menina, e dá-lhe a mão. Já percebi. Ainda bem, posso ir-me agora.

 

sinto-me: bahh, mais um dia
música: John Lennon - Watching The Wheels

04
Set 08
publicado por Andi, às 22:19link do post | comentar

O vento soprava um pouco agreste, e o tempo ameaçava chover a qualquer instante. Gostava dessa sensação de frescura na pele, fazia a sentir viva. Viva, que irónico! As pernas imóveis começavam a tremer, estivera assim há demasiado tempo, o cabelo solto parecia-lhe pesado e tapava-lhe um pouco a visão. Não conseguia bem discernir a realidade, ver com nitidez.

 

Mas ficaria assim mais um pouco. Tinha medo. Tinha receio. Como chegara àquele ponto? Não seria melhor desistir? Precisava pensar, raciocinar sobre o emaranhado de acções confusas e aleatórias que a tinham levado ali.

 

Porque tinha decidido aquilo? Seria o facto de todos quererem que ela não fizesse aquilo a tivesse empurrado cada vez mais naquela direcção, obstinadamente?

 

Sabia que era decidida e irremediavelmente obstinada, mas seria a culpada? Não seria aquela sensação angustiante de que nunca vivera a razão? Mas por outro lado, não viver, poderia ser melhor do que a esperava. Não sabia. A ignorância!

 

Sorriu. A ignorância. A irracionalidade. Talvez fossem essas as maiores condicionantes de... tudo! A aversão à mudança também não ajudava.

 

Fechou os olhos enquanto sentia mais uma lufada de vento oriundo do norte, com um cheiro a mar, nunca tinha visto o mar, e decidiu não pensar em mais nada, ou pelo menos aquilo a que ela chamava pensar.

 

Não olhou para baixo antes de saltar. Nunca gostara de alturas. Mas no ar ainda vibrava um grito avassalador e de libertação, que ecoaria por muito tempo.

 

JERÓNIMO!!!!

sinto-me: ok, falta pco xD
música: Red Hot Chili Peppers- Californication

14
Jul 08
publicado por Andi, às 16:43link do post | comentar | ver comentários (9)

"Façam uma carta para os vossos pais, escrevam o que lhes apetecer, mas têm de escrever um máximo de trinta linhas, e um mínimo de vinte."

 

Ordenou a professora, senhora do seu nariz arrebitado e pequeno. Os dedos sujos de pó de giz eram magros e aristocráticos, assim como ela. Limpou-os nas calças largas, e sacudiu-as com minúcia posteriormente.

 

Era professora há apenas dois anos e tinha-lhe calhado ficar ali, naquela serra encalhada, a morar numa casa onde nem tinha água, tinha de a ir buscar. Estava completamente saturada de dormir com os bichos, acordar com centopeias no seu quarto, de aturar os vizinhos sempre a perguntarem " A Senhora Professora precisa de algo?"... Só queria voltar a casa, ficar com os seus pais morar num sítio com algumas regras, disciplina, não ali onde tudo era desregrado, as acções submetidas ao capricho do coração e do livre arbítrio... Então as crianças, bem, nem queria pensar nisso...

 

Deixou-se cair na cadeira de carvalho velha e talhada das traquinices dos miúdos, estava a ficar desgastada daquele trabalho, daquele ambiente. Mas tinha de ter paciência, já faltava pouco tempo.

 

"Senhora Professora já acabei!"...

"E eu também!"...

"E eu"...

 

Aos poucos e poucos todos iam acabando a carta que a professora ordenara escrever. Já eram quase três horas, a escola estava a terminar por aquele dia. Foi mandando sair os alunos à medida que eles acabassem as cartas, havia de corrigi-las em casa.

 

 

Três horas. Só restava a Francisca, como sempre. Simplesmente, aquela rapariga não se conseguia despachar, parecia atrasada mentalmente!!

 

"Já está Francisca?"

"Ainda não."

 

Abeirou-se dela. Viu que já havia escrito uma folha inteira, o dobro do que ela tinha pedido de máximo.

 

"Não me ouviste a dizer que eram trinta linhas no máximo?"

"Ouvi, sim senhora professora."

"Então porque não fizeste só trinta?"

"Eu não consegui senhora professora, tinha tantas coisas para dizer, era tudo importante, se eu me esquecesse os meus pais ficavam tristes."

"Não podes fazer assim Francisca,  limites são limites, dizem-te até onde deves ir, se eu disse só trinta fazes só trinta, não interessa mais nada, escrevias menos, há sempre algo ou alguém que fica de fora, mas os limites são para se respeitar. Vá, toca a andar daqui."

 

 

 

O ar da serra penetrava-se em todos os poros da pele e parecia insuflar os miúdos que corriam, quase voavam pelo monte abaixo. Estava um dia solarengo, e o sol aquecia a terra, que exalava um odor quente e sensual, fazendo despertar nos animais reacções inesperadas.

 

Era dia de visita de estudo, a única no ano lectivo. Como era uma aldeia muito pequena, não podiam dar-se ao luxo de sair todos os trimestres, teria de ser daquela forma. Iriam à cidade ali ao pé, a um museu, e lá comeriam.

 

Um barulho rouco perturbou a calma e serenidade da serra, conjuntamente a um esfumaçar negro proveniente da camioneta que se avizinhava.

 

Era velha, pensou a professora, mas para sair dali por uma tarde, estava óptimo.

 

Encaminharam-se então, e após dez minutos de gritaria, lá conseguiu que todos se sentassem nos devidos lugares. Aos solavancos lá se dirigiram ao seu destino. Sensivelmente a meio da viagem a camioneta para. Repentinamente. O condutor sai. Pneu. Furado. Não existe outro.

 

Óptimo, pensou a professora e deixou-se afundar no assento de cabedal esfolado da carreira. O condutor teria de ir a pé à cidade buscar ajuda, ela ficaria ali a cuidar dos miúdos, mais uma vez...

 

Sentou-se. Mandou os alunos sentarem-se. Uma hora. Duas horas. Três horas. Um burburinho... Os alunos haviam juntando-se todos, encostando as suas cabeças miudinhas e curiosas.

 

"Que se passa aí?"

"Nada, senhora professora. Foi só a Francisca que está a partilhar o seu lanche connosco."

 

Francisca era a única que levava lanche, tinha alguns problemas de saúde, nada grave é certo, mas tinha de seguir a sua dieta rigorosamente.

 

A sua barriga estava já um pouco apertada. Não havia comido de manhã, com a pressa, e aquele calor provocava-lhe sede e sentia-se já meio zonza. Com certeza ela iria oferecer-lhe algo, era de bom tom, a mãe dela sempre o fazia, aquando as avaliações. Em passos miudinhos, e fazendo um barulho ritmado e suave, Francisca aproximou-se da professora.

 

E com tom inocente disse:

 

"Eu até dava à professora, mas não há mais, o limite foi ultrapassado, e não devemos ultrapassar limites."

 

Dito isto foi se sentar. Entretanto a professora agarrava-se ao estômago, tentando disfarçar a fome que tinha.

 

sinto-me: ilimitável

12
Jun 08
publicado por Andi, às 00:04link do post | comentar | ver comentários (4)

Estava quase a conseguir. Os dedos, esguios, finos e alvos,já se moviam com desenvoltura sobre as teclas do piano pardacento, todos faziam mira ao piano preto e elegante e à música que dele brotava como se fosse uma fonte, e ela a fizesse nascer e renascer. Podia sentir todos os olhares, cravados na sua nuca, ou nas suas mãos, ou em si. Estava a ser invadida. Mas tinha de continuar, o mestre assim o aconselhara, a mãe assim o mandara, e o pai, nada dissera, mas o seu olhar severo e rígido foi o menos indulgente de todos, quase ditatorial aquela expressão. Engraçado, como a mãe não parava de palrar durante um segundo, sobre os modos a ter durante a actuação, que aquela seria a sua prova, que iria mostrar a todos que sabia tocar piano como ninguém, que até, porventura, algum rapaz de boas famílias a achasse digna de ser a sua esposa. Estava em jogo a sua vida, e o futuro. Era como se todo o destino da Humanidade dependesse da sua actuação no anfiteatro mais pomposo e rococó do país, que a enjoava profundamente com as suas florinhas a cobrirem tudo e todos, até podia ver no lugar das caras das pessoas essas flores sem graça nem cheiro.

 

 

Mas lá estava ela, a tocar a peça da sua autoria, simples, mas com toques inovadores, sublime e calma, como uma canção de embalar. Tal como era esperado duma dama da sua classe.O espartilho magoava-a quando se inclinava para poder tocar, apertava-a, esmagava-a. Como era estúpido aquele trapo que a limitava. Simultaneamente, enquanto estes pensamentos percorriam a sua mente velozes, ela ostentava um sorriso, ou pelo menos tentava, ao público, enquanto tocava.

 

 

Lá na plateia conseguia perscrutar os rostos àvidos do mestre e da mãe, e o sempre rosto sério do pai. Ainda não tinha chegado a meio, mas sentia um torpor a percorrer-lhe o corpo. Estava farta daquele lugar, daquelas pessoas sorrisos hipócritas, abanando ostensivamente leques enramados, com mais flores!, e passando a mão sapuda e gorda à frente da boca para bisbilhotar com o vizinho do lado.

 

 

Viu passar uma mulher nos bastidores. Era vulgar. Corpo trigueiro, cabelos negros como azeviche, roupa bastante simples e modesta composta por uma saia e uma blusa verdes, e nada de espartilhos. Levava uma cesta de maçãs vermelhas, luzídias e, aparentemente, deliciosas nos braços. Devia ser uma empregada de um senhor rico, velho, com a pele encarquilhada, que provavelmente teria de pagar uma boa soma de dinheiro para poder ter uma mulher ao seu lado na cama.  Que visão mais estranha, aquela mulher ali, a passar na parte lateral dos bastidores, onde só ela a podia ver.

 

 

Invejou-a. Por não usar espartilho, pelo seu corpo solto, e natural envolto nos tecidos verdes já um pouco gastos, pelo seu cabelo enorme negro, pelas maçãs que transportava, pelos pés confortavelmente calços numas sandálias castanhas.

 

 

Invejou-a. Ela que era bela, tinha a pele branca e alva, os cabelos castanhos da cor das folhas perenes de Outono, e os olhos da mesma cor. Ela que tocava num anfiteatro. Num dos mais importantes. Ela que sabia tocar piano, e a mulher, provavelmente, o seu melhor ofício seria fazer um belo queijo de vaca, pelo que ia tirar-lhe o leite pela manhã, quando as gotas de orvalho pendem nas plantas verdejantes. 

 

Invejou-a. E depois? Gostaria de não ter mais preocupação nenhuma que levar um cesto de maçãs escarlates nas mãos, e fazer queijos.

 

 

Aproximava-se uma parte crucial na peça, era a mais difícil. Errou uma nota, mas ninguém para além do seu mestre notou o pequeno deslize. Conseguiu ver a sua expressão aterrorizada e desaprovadora. Um misto de medo e repreensão bailava nos seus olhos, como que a ordenar-lhe que tocasse tudo bem.

 

 

 

Continuou a tocar bem, só que com mais intensidade. O olhar mantinha-se. E mais alguns se juntaram, as pessoas começaram a agitar-se pela demasiada importância que a música estava a ganhar. Afinal, estavam ali só para se divertir um pouco. As suas mãos percorriam freneticamente o teclado, obtendo notas ao acaso, e um horrível som, cada vez mais intenso. Sentiu que fazia música, como nunca antes o tinha feito. Soltou uma gargalhada descomunal, que ecoou por todo o anfiteatro, e ressaltou nas flores foleiras presas nas paredes, nos vestidos, até nos chapéus, em tudo.

 

 

Feito isto, levantou-se, fez uma vénia, e saiu. Antes deu uma mirada rápida pelo público, estavam todos pasmos, a boca aberta de indignação ou seria de espanto? Não interessava, tinha de sair dali. Queria encontrar a mulher. Queria saber como era ser ela. Mesmo que depois descobrisse que afinal a prostituta do velho impotente era ela, ou mesmo que nada passara de uma ilusão provocada pelo cérebro sem oxigénio, por estrangulação do espartilho. Iria tentá-lo. E foi.

 

A mãe e o mestre, em conjunto com todos ficaram consternados com tal saída. Foram procurá-la. O pai permaneceu impavidamente sentado.

 


E bem, já não escriva assim há uns diazitos.Tenho andado ocupada, a estudar... E fez-me bem esta  pausa, já não me dava tanto prazer escrever há algum tempo. Se o texto está diferente do normal, é resultado das mortes sucessivas dos meus neurónios.

sinto-me: dont care
música: Shiver - Coldplay

25
Mai 08
publicado por Andi, às 20:17link do post | comentar

Nada do que faço é útil. Estou preso a uma corrente inquebrável, insustentável e, no entanto, ela não existe. Mas eu sinto-a, arrasta-se atrás de mim, faz-me andar devagar, melhor não faz  andar. Maldita! Eu poderia livrar-me dela, eu podia fazê-la apodrecer nos meus pensamentos ácidos. Eu podia....

 

De repente as paredes já não têm o seu tamanho normal. Encolheram. Não consigo respirar, já quase nem consigo ver o ecrã. Sou um escritor quarentão falhado e deprimido, e com crises de claustrofobia...

 

 

"Querida vou dar um passeio, vou à rua."

"Bom, faz isso, eu fico aqui em casa a fazer o jantar."

sinto-me: ...
música: Radiohead - Thinking about you

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