Does it make any sense?! No? So, welcome.
15
Dez 09
publicado por Andi, às 17:15link do post | comentar | ver comentários (1)

Neste momento estou demasiado chateada e irritada para ter em consideração qualquer mágoa hipócrita que possam vir a ter com o que vou escrever, ou qualquer comentário pseudo-intelectual sobre o problema da insularidade.

 

O que se passa, não sei se sabem, é que se está a dar uma grande vaga de frio no continente, Nosso Senhor nos livre de passarmos algum frio, porque em nossa casa ninguém tem aquecedores... Eu sei que o frio é mais preocupante na zona do interior e para quem realmente não tem forma de aquecer convenientemente a casa, isto tudo "agrava-se" nos idosos. Sei issto tudo...

 

Agora uma notícia de menor expressão é a ocorrência de grandes inundações na ilha Terceira, a minha ilha, a minha zona, que ligeiramente arrancou alcatrão à estrada e pôs carros a voar que nem a Mary Poppins. Não houve mortos, pois as pessoas fugiram para um lugar seguro, contudo houve algumas pessoas hospitalizadas. E a minha pergunta é, porque é que quando eu vi uma notícia muito sumária sobre o assunto mostraram imagens de Angra?? E depois, a questão que me apoquenta mesmo, a meteorologia, a protecção civil. Eu sou sincera, tantos anos a morar nos Açores fizeram-me desacreditar um bocado nas previsões metereológicas, e não sou a única. Não havia qualquer indício que isso iria acontecer? Foi apenas uma réplica do grande dilúvio que aconteceu há milhares de anos atrás, onde anda o Noé? A questão é que eu acho que ninguém estava muito preparado para o que aconteceu. A segunda questão é não haver qualquer tipo de aviso prévio, houve algum tipo de alerta? Que eu tenha tido conhecimento não, mas por outro lado eu, que neste momento estou no continente estou farta de saber que estamos em alerta amarelo por causa do frio.

 

Ah e tal tens que perceber que o continente tem muitas mais pessoas que essa ilha. Eu sei, mas isso não é qualquer tipo de justificação para o que acontece sempre, é apenas o reflexo da perspectiva egoísta e narcisista que tenho vindo a assistir todos os dias, o canibalismo esfomeante que nos consome a todos. Estão a morrer debaixo de lameiro? Não interessa, desde que tenhamos temperaturas tropicais no continente a meio do Inverno.

 

Cut the crap.

 

E só um aparte, o que aconteceu, só aconteceu devido a uma descarga de água enorme, tão grande que até me arrepio, pois já estou em Lisboa há um ano e tal e a inundação que houve o ano passado, teria sido catastrófica se tivesse sido provocada com tamanha quantidade de água. Aí teríamos morrido todos e ido parar ao fundo do Tejo, com os peixes mutantes.

 

Para quem queira comprovar o que acabei de dizer, aqui ficam as notícias.

sinto-me: irritada

04
Set 09
publicado por Andi, às 16:12link do post | comentar

15 de Novembro de 1901

 

 O dia tinha começado havia pouco tempo, apenas uma luz ténue entrava nas janelas embaciadas pelo orvalho matinal da casa de Maria da Conceição e Hildeberto Fonseca. Contudo, já se observava alguma azáfama dentro de casa, a mulher arranjava o pão que havia cozido na sexta passada, migando-o para dentro de uma tigela e entregando-a ao marido, alimento para o confortar para uma manhã de trabalho árduo.

 

Havia apenas uns murmúrios ténues trocados entre o casal àquela hora matinal, os filhos dormiam todos divididos por dois quartos, incluindo a pequenina que dormia no quarto deles, no berço, descansava de uma noite passada em claro, gritada a plenos pulmões, como se lhe espetasse agulhas em todo o corpo, finava-se, debatia-se nos braços da mãe, enquanto esta tentava acalmá-la, mas parecia não ter efeito. Por fim, vencida pelo cansaço, deixou-se dormir envolta nos lençóis brancos bordados pela mãe, uns meses antes da sua vinda atribulada a este mundo.

 

Após a refeição Fonseca disse à mulher:


"Só volto depois à hora do almoço. Vou agora para as vacas, lá para os cerrados acima da ladeira."


"Toma cuidado, não sei se o tempo vai ficar mau."


Respondeu Maria com uma nota de preocupação na voz, tinha aprendido com a mãe os sinais para prever o tempo, conseguia ver os prenúncios no comportamentos dos animais, na posição da lua, em si até, senti-a apenas. Inclusive fazia um calendário em que anotava o tempo que fazia durante o primeiro mês de cada ano, nos primeiros doze dias do mês anotava com um desenho o tempo que fazia, pois não sabia ler nem escrever, apenas conhecia a noção do tempo e dos números, esses dias serviam para arremendar cada mês desse ano, os próximos doze dias desarremendavam, dando uma noção mais precisa do tempo que iria estar. Nada era certo, nada era definitivo, era necessário sensibilidade para distinguir os prenúncios verdadeiros dos falsos. Todas estas condições faziam com que ela fosse extremamente sensível nesse aspecto. Não falava abertamente com ninguém acerca disso, pois iriam considerar maluca, dizer que se sente o tempo que faz, onde já se viu?! Não o escondia também, é certo, tanto que tinha avisado o marido, sentia o capricho do tempo,  o vento começava a sussurrar matreiro, o sol que entrava pela janela virada para nascente parecia de pouca dura.

 

"Lá nada. O tempo vai estar bom hoje. Não te arrelies mulher. Na hora do almoço cá estarei!"


"Nosso Senhor te acompanhe."


Arrematou a mulher a conversa com uma despedida pouco usual.

 

O marido foi à rua, preparou o material necessário e lá foi, pelo caminho íngreme que ligava a casa aos pastos circundantes, estava preocupado com uma vaca que estava na altura de parir e ainda não mostrava quaisquer sinais de parto.

 

Maria observava, ansiosa, o marido a afastar-se. Nada daquilo lhe parecia bem, um nó apertava-lhe a garganta, imobilizava as cordas vocais, angustiava-a! Parecia um dia normal, mas a terra estava à espreita, à espera de algo substancialmente grave e grandioso.

 

Abanou a cabeça, tentando afastar aqueles sentimentos, e foi ao seu quarto, levada pelo choro da pequena Luzia. Pegou-lhe ao colo e supondo que teria fome, puxou a blusa para cima e alimentou-a do seu leite.

 

A bebé fechou os olhos enquanto bebia, e a mãe ficou a olhar para ela, descansando do que seria um dia longo. Tinha o seu corpo endurecido pelo trabalho, talhado para as suas tarefas rotineiras, embora ainda fosse nova, ainda tivesse vinte e sete anos, já tinha uma velhice causada pelo trabalho, pelo vento carregado de sal, pelos filhos, que embora amasse, tinham vindo cedo na sua vida, quando ainda por dentro se sentia uma menina, mas isso eram preocupações supérfluas. Era uma Mulher. Apesar do trabalho ainda mantinha os seus traços de beleza insular que a caracterizavam desde sempre.

 

Levantou-se deixando a bebé no berço, e certificando-se que todos os filhos dormir, pegou num cesto de vime com roupa suja e saiu de casa, andando apenas uns poucos metros na direcção do quintal, na direcção da ribeira, e aí encontrou as suas vizinhas.

 

"Ora bons dias, Lucinda e Guadalupe.  Como estão os pequenos?"


Maria referia-se aos filhos que as suas vizinhas tinham e que ainda eram relativamente pequenos, como os seus! Lucinda, uma mulher bonacheirona, com rosto redondo, cabelos castanhos, e mãos rechonchudas era uma mãe modelo, e mesmo o parecia, era de uma calma inusitada, mas quando se tratava dos seus rebentos, podia transformar-se radicalmente.

Já Guadalupe tinha sempre um feitio mais explosivo, era muito energética e prática, mas também muito orgulhosa do que fazia como parteira, dos seus haveres, dos seus filhos e do seu corpo, embora todas elas fossem bonitas à sua maneira, a beleza de Guadalupe era uma beleza vistosa que atraía os homens famintos, que os cegava de luxúria, e esse aspecto já havia sido seio de muitas desavenças na freguesia no passado.

À laia de resposta à pergunta feita pela vizinha ambas as mulheres acenaram com a cabeça, entre uma escovadela e passar a roupa por água.


Quando é o baptizado da tua pequena?” perguntou a mais velha, Guadalupe.


Ainda bem que me falas nisso, vai ser no Domingo, daqui a três dias. Queria convidar ambas a aparecerem na missa. Deram-me uma grande ajuda, a missa não seria o mesmo sem vocês!


Descansa que vamos aparecer Maria. É na hora do costume?

Maria anuiu com a cabeça.


Era costume baptizar as crianças poucos dias depois de estas nascerem, Maria não queria que a sua pequenina não fosse consagrada aos olhos de Deus como sua filha, aliás, era também uma precaução contra as tentações futuras e os poderes malignos. Fazia dezassete dias no dia do seu baptismo a pequena Luzia, era mais do que tempo de se consagrar. Já tinha o vestido de linho branco preparado para o dia especial, e ideias acerca do que seria o almoço nesse dia de festa começavam a aparecer na cabeça de Maria. Seria necessário levantar-se mais cedo do que o costume, tirar alguma carne da salgadeira, matar uma galinha velha, fazer umas sopas de carne, e por fim fazer papas, para agradar aos seus outros petizes. Iria pedir também que a sua mãe e tias, e igualmente primas, se juntassem à família naquele dia.


Absorta nesses pensamentos, nem deu conta que já tinha acabado de lavar a roupa toda, e era necessária pendurá-la. Tal como ela, as vizinhas já tinham terminado a sua tarefa, e cada uma iria dirigir-se a sua casa para continuar as tarefas domésticas. Despediram-se alegremente e partiram.


Com o cesto de lado, Maria continuou o caminho naquele pequeno carreiro de terra batida que a levava a casa, ao quintal onde tinha uma pequena corda, onde estendia a roupa. Acto contínuo, ao executar tal tarefa, e enquanto a fragrância do sabão azul se propagava no ar, reparou que as roupas começavam a balançar num ritmo cada vez mais veloz, não tardaria que levantassem voo e fossem parara um lugar longínquo, ultrapassassem a barreira insular e se transportassem para um Mundo Novo, um Mundo de novidade e de mistério. Recolheu a roupa sem mais delongas e colocou-a novamente no cesto, para poder estendê-la numa altura mais propícia. Preocupada, regressou a casa, e encontrou o filho mais velho acordado, com os seus olhos grandes, que o caracterizavam, a olhar alheado pela janela, observando as faias na sua dança frenética movidas pela melodia do vento.


Anda Manuel, vem comer.” Disse a sua mãe, tentando ignorar os presságios.


O rapaz obedeceu, como era seu costume, e a ele seguiram-se os seus irmãos naquele ritual matinal de sequência, acordava um, e os outros acordavam com o barulho, começava a comer e os outros seguiam-se. A mãe via-se numa espiral de actividades, acode aqui, corre ali, serve a comida ao mais novo, manda o mais velho ajudar os mais pequenos, de modo a que todos estivessem prontos na altura devida. Por momentos Maria gostava de ver, embevecida, os seus filhos naquela altura da manhã, quando acordavam de um sono inocente, e ainda não havia brigas e disputas entre eles, como acontece como todos os irmãos, quando ainda não havia problemas domésticos para resolver, e tudo se reduzia a uma questão de azáfama para alimentar todos.


Como ainda era bastante cedo, e visto que Hildeberto ainda estava nos cerrados, mandou as crianças brincarem, perto de casa, é certo, mas permitiu dar-lhes aquele tempo de descontracção antes dos mais velhos executarem pequenas tarefas que lhes eram incumbidas pelo pai, para os rapazes, e pela mãe, pelas raparigas.

Foi com alegria que os pequenos ouviram tal permissão e com igual satisfação correram de casa a correr descalços para darem largas à sua imaginação, descobrindo cantos perdidos nos terrenos circundantes da sua casa, e mesmo terrenos mais afastados, sem a mãe saber, obviamente.


Maria permitiu-se também um tempo de descanso daquelas lidas matinais. Pegou na cadeira de madeira tosca que havia no seu quarto de casa, que havia sido feito pelo seu pai para o seu casamento, bem como o resto da mobília da casa, e que ainda conservava, e esperava conservar enquanto vivesse, conservando igualmente a memória do pai que já havia morrido, que Deus lhe dê descanso. O pai que sempre a ensinara a fazer as tarefas que lhe eram confiadas com a maior perfeição e orgulho, mesmo que lhe fosse custoso fazê-lo, um homem de uma ética surpreendente, contudo de uma teimosia inabalável, inquebrável e que lhe provocou alguns atritos com a filha, mas que acabaram por acabar com a cedência da filha. Ajudou-a a ser tolerante e perseverante. Muito devia ao seu pai.


Também hás-de aprender muito com o teu pai, Luzinha.” Murmurava Maria, enquanto se balançava na cadeira de recordações.

 

Ficou algum tempo observando-a e falando com a pequena baixinho para que não a acordasse, falando-lhe no avô que não conheceria, pelo menos fisicamente, pois Maria da Conceição queria ter a certeza que a sua neta conhecesse o génio do avô, pelas suas memórias, pelos seus feitos que tinham deixado uma marca indelével na família.

 

Acordou sobressaltada com os seus filhos a correrem pela casa adentro, dizendo que tinham fome, e que estava chovendo na rua.

Constatou que assim era, olhando pela janela, não conseguia observar mais do que grossas cordas de água que vinham furiosamente castigar o chão, deixando tudo em lameiro, provocando a ribeira, que se exaltava e que ameaçava saltar do seu lugar.

Já passava da hora do almoço, havia há muito, pois os seus filhos nunca teriam vindo para casa à hora do almoço para comer, era um costume já ter que gritar várias vezes com eles para deixarem a brincadeira e vir comer. Recriminou-se por ter adormecido estupidamente, e ter baixado a guarda nas suas funções! Lembrou-se do marido, e virou-se para Manuel:


Onde está o teu pai? Já voltou a casa?” o tom de preocupação na voz traía a sua aparente calma.


A resposta dada por aqueles grandes olhos esverdeados foi negativa.

 


Um Sopro de vento...#1 e 2


Ps. Não esqueci que o blog fez dois anos! Parabéns a quem ainda me acompanha.

sinto-me: stressed out
música: Where the Streets Have no Name -U2

08
Jun 09
publicado por Andi, às 19:59link do post | comentar

Já aqui referi que não sou adepta fervorosa de jogos e esquemas políticos, mas vou abrir uma excepção aqui. Já que toda a gente fala e comenta do ambiente de crise que se vive, a pobreza extrema, a miséria, a fome, o apocalipse!!, também eu quero mostrar o meu ponto de vista hiperbólico.


Eleições ontem, a minha primeira oportunidade de votar... Yey! Não votei. Claro. Este é o meu primeiro ponto de revolta indignada. Dada a impossibilidade de me deslocar ao meu sítio de residência, que só assim por alto fica a 1500 e tal quilómetros de onde me encontro, porque não existe uma alternativa?


Segundo ponto. Ah e tal, PSD ganhou, mas BE triplicou o número de deputados, e PP isto, Ps aquilo... A minha versão da história: Bla bla bla bla bla. Não houve vencedores nestas eleições! Primeiro porque a abstenção foi enorme, nem metade dos que podiam votar votaram, depois porque houve muitos votos em branco, o que mostra um descontentamento geral das pessoas em relação a isso tudo. Talvez também porque ninguém percebeu bem o intuito dessas eleições, quais as propostas de cada partido, e mais importante ainda de realçar, qual o papel do Parlamento Europeu no nosso País, na nossa vida e na Comunidade Europeia (confesso que nem eu compreendo totalmente como isto se processa).


Terceiro ponto, e bem mais pessoal num ponto de vista político, o crescimento dos apoiantes de extrema direita preocupa-me deveras, não gostaria de todo viver numa Europa extrema-direita.




E pronto meus amigos, tomem e embrulhem que não sai mais disto aqui.


15
Jan 08
publicado por Andi, às 19:05link do post | comentar

O país está mal, a crise, o governo, os preços aumentam, o Gato Fedorento que vai estar de férias agora uns bons meses... Todos nós sabemos isso. E não esperamos, pelo menos a maioria de a situação melhorar brevemente, assim num clique como se de magia se tratasse. Falo de Portugal em geral. Agora, se passarmos isso para o contexto açoreano, a situação torna-se pior. Eu acho que chega a tornar-se tão rídicula, que só me dá vontade de rir!!

 

Não me levem a mal, eu não gosto de me fazer de vítima, nem de ver discriminação em tudo, aliás porque não existem motivos para tal, somos tão portugueses, tão capazes de algo como qualquer continental. Mas a verdade é que, uma vez mais a insularidade limita-nos.

 

Tomemos o caso da saúde, do sistema de saúde. Se este já é bastante mau em todo o país, porque temos de esperar tempo e tempo e tempo,para depois sermos atendidos durante cinco minutos, pior é quando temos de viajar fora da ilha para fazer simples operações ou exames. Mas acho que a isso até estamos habituados, dado que isso já dura há muito. Agora o que eu não sabia era que em algumas ilhas da região existem certos exames que deviam ser dados, e não o são... Exemplo das mamografias, não são dadas pelo centro de saúde, tem que se recorrer a um consultorio qualquer e pagar uma chapoeirada (expressão que a minha mãe utiliza para dizer que é muito caro, e que até eu acho piada) para isso. O mais interessante a retirar disso tudo é que o centro de saúde só oferece as mamografias a quem já tem cancro da mama!! Honestamente,isto é do mais ridículo que já vi. E como esta, existem muitas outras situações.

 

Pois é, quem não tem nada relevante para fazer, quer dizer tem, mas não tem pachorra para nada, faz estes posts assim do nada!!

 

PS. Se eu encontro o gajo que decidiu que era muito giro os alunos fazerem um exame a contar para a nota a meio do ano... Páh, aguentem-me! :@

sinto-me: farta

02
Set 07
publicado por Andi, às 01:25link do post | comentar | ver comentários (26)

Insularidade:

 

qualidade ou carácter do que é insular;
isolamento em ilha;
configuração ou situação de um país composto de uma ou mais ilhas.
(Retirado da internet)

Para muitas pessoas, insularidade é apenas uma palavra grande e "cara", como diz um bom português, nem sei se a maioria das pessoas sabe o seu significado, mas sei que as pessoas que me rodeiam a sentem, e eu também claro. É esse o resultado de viver em ilhas solitárias no meio do oceano, que é uma constante no nosso olhar e na nossa vida quotidiana.

Não pensem que eu não gosto de viver nos Açores, bem pelo contrário. Gosto bastante, e há todo um misticismo, mistério que envolve estas terras e as suas gentes que me fascina. Principalmente as histórias de outrora que os mais idosos recordam com uma voz carregada de sentimento e saudade. Começará sempre com um "No meu tempo...". Mas não é dessas histórias que me entusiasmam e me prendem que quero falar aqui.

A insularidade tem consequências em muitos aspectos da vida açoriana e toma diferentes formas. Mas há uma particularidade -  a pronúncia e a linguagem. Nestas ilhas de bruma, é para nós, seus habitantes, claramente identificável um continental, apenas basta que fale. E claro, vice-versa. No entanto, até entre as várias ilhas se notam claras diferenças nas pronúncias. Admito que até é preciso algum sentido auditivo apurado para distinguir o que dizemos, por vezes.

 

A linguagem essa, sofreu algumas alterações devido as variâncias culturais que temos atravessado. A elevada percentagem de emigração para os Estados Unidos e para o Canadá fizeram com que "aportuguesássemos" muitas das palavras. Outra curiosidade é que o pronome pessoal "Nós" é bastante escasso por aqui. Utilizámos, ao invés deste, o "agente", e note-se que não acho errado fazermos isso, se o fizermos correctamente. Pronto e aqui ficam algumas palavras e expressões, e respectivo significado à frente,  provenientes destas ilhotas perdidas no Atlântico ( perdidas até alguém se lembrar novamente do ponto estratégico que somos...):

 

-"É uome"; Expressão que significa espanto e assombro , em português " É homem"

-"Samarra"; Significa casaco

-"Mapa"; O mesmo que esfregona

-"Gasolinha"; Isqueiro

-"Candinhos"; Vem do inglês "candies", e significa doces

-"Raiuai"; Vem do inglês "highway", e significa auto-estrada

-"Gama"; Vem do inglês "gum" e significa pastilha elástica

-"Pana"; Proveniente da palavra inglesa "pan" e siginifica um recipiente de plástico

-"Blica"; Pénis

-"Paranhos"; Teias de aranha

-"Corisco mal-amanhado"; Designação que os terceirenses tanto gostam de apelidar os micaelenses

-"Guindar"; Atirar

-"Friza"; Proveniente da palavra "freezer" e significa congelador

-"Atoleimado"; Tolo

-"Sinó"; Originário da palavra "snow" que significa neve

-"Basse"; Originário da palavra "bus" que significa autocarro

-"Naião"; O mesmo que homossexual

-"Vento encanado"; Correntes de ar

-"Fogo t'abrasse"; Expressão que siginifica o mesmo que "Vai dar uma volta"

-"Mãn abence"; Pedido de benção à mãe, neste caso

-"Gueixa"; Bezerra

-"Gadanhos"; Sentudo figurado para mãos

-"Rebendita"; Vingança

-"Mais melhou"; Erro de português, melhor era suficiente

-"Vencimente" Proveniente do inglês "Basement" e é utilizado para descrever a base aérea

-"Meítos"; Meias

-"Estôa"; Originário do inglês "store" e significa loja

-"Estás bem amanhado"; Estás num sarilho

-"Trela"; Proveniente da palavra inglesa "trailer" e significa atrelado 

-"Rár aták"; Proveniente da palavra inglesa "heart attack" e significa ataque de coração

-"Ilhó"; olho do c*

-"Suera"; Proveniente da palavra inglesa "sweater" e significa camisola

-"Fominha negra" Muita fome

-"Penca"; Nariz

-"Clauseta"; Proveniente da palavra inglesa "Clouset" e significa roupeiro

-"Microeives"; Proveniente da palavra inglesa "microwave" e significa micro-ondas

-"Macaquins"; Desenhos animados

-"Cramalheira"; Queixo, dentes ou cabeça (não há muito consenso em relação a esta palavra)

-"Nisca de gente"; Criança, ou sentido figurado para pessoa insignificante

-"Frejoeira";Proveniente da palavra inglesa "refrigerator" e significa frigorífico

-"Morrinha"; Cheiro mau, doença, que enjoa

-"Arrebentar"; Rebentar

-"Alvarozes"; Proveniente da palavra inglesa "overalls" e significa jardineiras ou fato-macaco

-"Falsa"; Sótão

-"Gárbiche" Proveniente da palavra inglesa "garbage" e significa lixo

-"Barbaquiú" Churrasco

-"Tal desteza!" Significa "Tal tristeza" e expressa desagrado

-"Discreteza" Inteligência

-"Nesga" Um pouco

-"Ragafa" Garrafa

-"Ragafão" Garrafão

-"Arreganhar" Mostrar os dentes

-"Pela" Almofada

- "iê" eu

-"requinho" giro

- "abinçoado" abençoado

- "Abaniar" - Atirar

-"Cemenos" - Pessoa que não pesta

-"Há lepra" pessoas má, tipico das lajes do Pico

-"Demoino" - Pessoa má, provem da palavra "Demónio"


 

Ps. Após ter assassinado a lingua portuguesa várias vezes, deixo aqui um convite para indicarem termos/expressões açorianas que não referi aqui.

 


 

Pss. Aproveito também  para agradecer àqueles que me deram uma ou outra sugestão, aos meus colaboradores... :P
sinto-me: açoriana de gema
música: C(h)aramba - música tradicional aqui deste cantinho

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