Does it make any sense?! No? So, welcome.
03
Nov 08
publicado por Andi, às 13:34link do post

 

A música arranca. Os músicos estão compostos em forma de U, e apresentam-se bem vestidos, arranjados para a ocasião, vestiram a sua melhor roupa, barbearam-se, usaram da colónia antiga que guardam no fundo do guarda-roupa para situações especiais. O nervosismo é palpável, se acontecer algum erro, a música ficará logo diferente, e eles não queriam isso, deveria ser como eles tinham tão arduamente ensaiado. A sala está em êxtase, sorrisos palpitam nos rostos sorridentes dos convidados, os olhares atentos fixam-se na banda, e os ouvidos, preparam-se para ouvir a música tão desejada, até há os que até já dizem ouvir música, mas nada mais é que invenções mirabolantes da imaginação, uma fuga imperceptível dos sentidos, uma libertação da realidade oprimida, e que os fazem sentir felizes. O baterista arranca da bateria dois sons suaves, sinal para todos tocarem em simultâneo. Então todos se misturam, numa mescla auditiva, o trompete, o saxofone, o contrabaixo, o piano, a bateria… Os convidados aprovam a melodia melíflua e inocente que vai preenchendo a sala decorada com muitas flores, amarelas, brancas, azuis e violetas, existem também quadros representativos de situações que ilustravam a luta contra a segregação racial, que são contemplados longamente, um por um, por todos os que estão presentes. Ao fundo da sala existe uma mesa com alguns petiscos, para saciar a fome ocasional de algum, e claro existem também as bebidas.
 
A banda está a sair-se bem, agora partilham dos sorrisos inocentes que os espectadores exibiam antes de começarem. A primeira música chega ao fim. Aplausos. Agradecimentos. Recomeçam a tocar, desta vez com mais vigor, ritmo, afinco e energia. Conseguem entre um ou outro lampejo de lucidez, entre a vibração hipnótica da música, vislumbrar os convidados a juntar-se em pares, os homens a agarrarem firmemente as mulheres, com uma mão pelas costas seminuas, devido aos decotes dos vestidos, na zona da cintura, e outra a agarrar a mão fina e longa da mulher, aproximam-se e dançam energeticamente ao som da melodia ritmada. Tocam freneticamente, os dedos voam por cima dos instrumentos, magoa um pouco tocar assim com tanta velocidade e precisão, no contrabaixo, mas o tocador não se queixa, fecha os olhos em vez disso. Os que tocam instrumentos de sopro, aguentam o fôlego um pouco mais do que nos ensaios e fazem demorar a música, como se nunca quisessem que acabasse.
 
Uma hora. Um intervalo. Outra hora. Chega assim o fim do serão. Já são onze horas, são horas de voltar a casa, amanhã todos têm que trabalhar, o tempo não perdoa. Vão todos ver-se amanhã, mas hoje não são eles, têm liberdade, têm expressão. O vocalista, com a sua voz envolvente, anuncia, então, o fim do serão, da actuação da banda. Os pares dispersos aleatoriamente pela sala acolhedora separam-se repentinamente, e instala-se um silêncio, ouve-se cada respiração ofegante, o latejar dos corações no mesmo ritmo… Até que alguém grita que quer mais, e mais, e que o amanhã não importa, não fará diferença mais uma hora. Vozes juntam-se, solicitadoras, por mais. Pedem e pedem, repetidamente.
Os músicos entreolham-se, e sem nada dizer, retiram novamente os instrumentos, que já haviam guardado e voltam à sua disposição inicial. Não têm mais músicas diferentes para tocar. As pessoas ainda continuam a pedir. O saxofonista começa a tocar algo, algo, algo… Que tocava ele? Não sabia. Não pensou, apenas deixou fluir aquela dormência que lhe aquecia os braços e os faziam movimentar, a música emanava naturalmente do saxofone, como se estivesse sempre lá à espera de um momento oportuno para ser revelada. Os outros músicos imitam-no, e os pares voltam-se a unir. Dançaram assim, até ser de manhã, até o suor lhes colar a roupa ao corpo, até terem de se descalçar, até faltar comida e bebida. Mas nunca faltou cadências instantâneas nessa noite. A sua felicidade era, ela própria, uma cadência instantânea.
sinto-me: fine
música: What i'd say - Ray Charles

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