Does it make any sense?! No? So, welcome.
14
Mar 08
publicado por Andi, às 21:38link do post | comentar | ver comentários (9)

 Os seus olhos abriram lentamente, vislumbrando, primeiro uma névoa, e depois a imagem nublada foi clarificando e tornou-se nítida. Tinha acordado. Encontrava-se confusa e esquisita. Não sabia onde estava, o que tinha acontecido nos últimos, momentos? Horas? Dias? Não sabia. Não tinha qualquer noção na sua mente, a não ser a da sua existência num mundo estranho e inócuo. E ainda assim, não sabia se estaria numa espécie de sonho estranhamente lúcido e real... Pois não tinha memória de alguma vez ter estado naquele local...

 

Memória! Conceito meramente inventado pelo Homem para não cair nas garras do desespero, para poder almejar, pelo menos, o controlo do incontrolável, a sensação de segurança de quem mantém o que é necessário, e exclui o que não é da sua mente. Vã segurança! Comparou aquela segurança àquela que tinham as pessoas falsamente crentes, agarradas à salvação que pensavam conseguir seguindo as regras de moral ditadas por alguém mesquinho, que Fantasia não sabia quem era... Laivos de imagens da procissão da aldeia a passar surgiu-lhe. As crianças pequenas e inocentes, vestidas de um branco imaculado seguiam em fila, com a vela trémula nas mãos, atrás do andor do padroeiro da freguesia que Fantasia não fazia a mínima ideia. Arminda costumava ir descalça, vestida de preto da cabeça aos pés, murmurando uma ladainha impossível de perceber, enquanto ela e os restantes eram obrigados a ir atrás dela... Arminda!!! Já começava a lembrar...

 

As imagens começavam a aparecer na sua cabeça, vindas daquela associação, enquanto ela tentava reconhecer o quarto onde estava. Não, não o conhecia, não estava na Instituição, portanto. Conhecia todos os recantos da Instituição, vivia lá desde que se conhecia. Todos os rostos lhe eram familiares, e no entanto, tão iguais entre si, não falava com ninguém e ninguém falava com ela à excepção de Joana. Joana e a sua recente ida ao mercado, que dia fantástico...

 

O quarto estava pintado de cal, branca como a espuma do mar, e transmitia um aspecto de humildade e limpeza, exceptuando duas pequenas manchas de humidade num canto do quarto. As cortinas e a manta da cama eram ambas azuis escuras, contrastavam com as paredes alvas pontuadas aqui e ali com algum quadro ou fotografia. Ao canto do quarto pequeno e limpo estava uma arca de madeira pesada, tinha um aspecto antigo, e exibia algumas cicatrizes provavelmente feitas por algum miúdo traquinas, Fantasia pensou. Aos seus pés tinha uma manta de retalhos velha, com cores desbotadas, feita de tecidos que restaram de blusas, calças, vestidos feitos à mão por alguém paciente e trabalhador.

 

Sentou-se na cama, que rangeu sob o seu peso, e lentamente levantou-se. Sentia a cabeça pesada, e os joelhos ameaçavam ceder, estava fraca, e, teve noção que estava ferida nos pés e nos joelhos. Respirou profundamente, tentando arranjar forças para sair dali, ou, pelo menos saber onde estava, se estava em segurança, e, ao mesmo tempo, levantou a cabeça, e olhou pela janela, para os campos luxuriantes vestidos de verde vivo, e amarelo, das ervas azedas, e o azul claro do céu, o branco das nuvens, o rosa manchado das hortênsias que haviam no quintal... Maravilhava-a toda aquela pujança colorida que a Natureza exibia, tão complexa, e ao mesmo tempo tão simples, que passava muitas vezes imperceptível aos olhos das pessoas.

 

Estava  imóvel, a olhar pela janela, quando ouviu a porta abrir-se atrás de si, e um torpor apoderou-se do seu corpo, impossibilitando que ela se virasse imediatamente para trás.

 

"Fantasia..."

 

Conhecia aquela voz. Era Pedro! Pedro, que a tinha tentado apanhar quando ela fugira da Instituição, e que a denunciara, juntamente com José! Agora lembrava-se de tudo, tudo se tornava nítido agora... Como estava revoltada com aquela traição de José, que era seu único amigo, e de Pedro também, a quem até já tinha perdoado o roubo do búzio, embora detestasse que mexesse nas suas coisas, alterassem a sua ordem!!

 

A sua única incógnita era saber onde estava, e como sair dali! Não podia entrar em pânico, mas sentiu uma onde de calor percorrer-lhe o corpo e o seu coração batia acelerado , sentia-o como a terra sente os cascos de um cavalo enfurecido que corre.

 

"Fantasia..."

 

Disse ela. A voz saía aparentemente segura, mas conseguia-se descortinar uma ponta de nervosismo e raiva. Já antevia tudo, como se de uma visão premonitória se tratasse, o seu retorno à Instituição, o regozijo evidente no sorriso sarcástico de Arminda, ver de novo aquela besta do Alberto, voltar à prisão dissimulada, ao cativeiro sufocante que era a rotina daquele lugar...

 

Ele avançou alguns passos, e entrou no quarto, em passadas largas. E sentiu, por instantes, os olhos grandes e um pouco brilhantes, de lágrimas talvez - pensou ele, de Fantasia, dela, ela...

 

Ela recuou os mesmos passos, encostando-se à parede alva daquele quarto. Percebendo que podia ser mal interpretado, Pedro decidiu explicar tudo a Fantasia, não a queria assustar, tão pouco magoar.  Voltou a recuar, e sentou o seu corpo alto e esguio no chão esfregado do quarto. Cruzou as pernas, e passou a mão pelos cabelos castanho escuro, afastando-os dos olhos castanhos e doces, que ficaram completamente destapados. 

 

"Eu não estou aqui para te magoar, nem fazer mal."

 

Começou por dizer Pedro, tentando acalmar Fantasia, ainda sentia a sua desconfiança apontada pelo olhar de soslaio permanente e dos lábios sem expressão dela.

 

Fantasia estava, de facto, desconfiada, não confiava em Pedro, sabia que ele a tinha entregue, e que lhe tinha feito algo, para acordar ali, sem saber dos acontecimentos recentes, pelo menos até quando o viu na praia, nem sabia se tinha havido mais alguma coisa após isso... Nem sabia que dia era, também nunca lhe interessava, essa convenção de tempo era inócua para ela, ela dividia o tempo pelo seu ritmo natural, mais lento no Inverno, e mais rápido no Verão, constante e mutável, obstinado e tolerante. Mas decidiu que não poderia fazer nada, por enquanto, iria ouvir o que lhe tinha a dizer, e depois resolveria como fazer.

 

"Vou-te contar desde o início, para perceberes. Eu chamo-me Pedro, como já deves saber, não que isso te interesse, mas adiante, e o meu apelido é Ferreira. O José também é Ferreira, ele é meu parente, é meu tio. Conheço-o desde pequeno, e é dos poucos, senão o único, da minha família com quem tenho um bom relacionamento, e até um relacionamento. Fui parar até à Instituição porque os meus pais maltratavam-me, e obrigaram-me a trabalhar desde miúdo, e portanto, deixaram-me a cargo de um funcionário governamental, o Alberto, e o resto tu sabes."

 

Aclarou a voz. Não sabia bem o que ganhava ao contar-lhe tudo, se calhar nem iria alterar nada, mas não conseguia mais guardar aquilo tudo para si. Portanto, olhou para o chão, para não ter que enfrentar o olhar inquiridor de Fantasia, e prosseguiu.

 

"O meu objectivo nunca te foi chatear, na noite em que chegaste, reparei em ti, quando passaste pelo corredor, parecias chateada, e a única não interessada em prender a minha atenção. Todos pensavam que era filho de Alberto, embora ele me tratasse como tal, não de uma maneira afectuoso, mas com rigidez, com um orgulho prepotente de ter um rapaz forte e ajuizado , embora eu ache que não seja nenhuma das coisas"

Ri-se.

 

"Enfim, apenas quis-te conhecer um pouco melhor, já que a Instituição seria o meu lar... Portanto fui até ao teu quarto, no dia seguinte, mas ainda estavas a dormir, parecias estar a dormir tão descansada, que não te quis acordar, ia-me embora, mas foi aí que vi as tuas coisas... Os teus quadros... Os teus pequenos objectos, que na altura pensei que recolhesses por ter algum significado, incluindo o búzio. Retirei-o, pensando que não te importavas, já que eu te ia devolver, não queria ficar com ele, queria encontrar um semelhante para te oferecer..."

 

Nesta parte, Pedro corou um pouco, não estava habituado a dizer aquelas coisas, ainda por cima a raparigas, era estranho, contudo não parou.

 

"E foi então que decidi ir falar com o meu tio, que, como sabes, é um homem do mar, conhece-o e a alguns dos seus mistérios. E, fui-lhe perguntar onde ele saberia encontrar um búzio parecido. Ele respondeu-me que te conhecia e que tinha sido mesmo ele a entregar aquele búzio, e também acrescentou que não te deveria ter tirado, aí já me apercebi que poderias ficar realmente chateada, portanto dei-lho e fui procurar um, e quando me encontraste, era precisamente o que estava a fazer.  Claro que depois de cair à agua, não procurei mais búzio nenhum..."

 

Será que ele está mesmo a dizer a verdade? Pensava Fantasia, enquanto Pedro continuava a sua extensa exposição dos factos...

 

"Sinto-me culpado pelo raspanete que levaste da Arminda e do Alberto, e por teres sido castigada por mim, ainda tentei convencer Alberto a não te dar nenhum castigo, mas o máximo que consegui foi ele não te dar um castigo que envolvesse fome ou violência, porque... ninguém merece isso..."

 

Pedro parou, repentinamente, de falar e instalou-se um silêncio um pouco incómodo em que o barulho da respiração e de algum movimento involuntário faziam-se ouvir perfeitamente. Não era momento para parar a conversa, portanto, aclarou a voz e prosseguiu.

 

"Os dias seguintes mantive-me afastado de ti, para te afastar de problemas, embora a tua presença sempre me causasse curiosidade, queria, e quero saber mais de ti... Eu sei que pareço completamente irracional e demente, mas não consigo deixar de dizer a verdade! Bem, continuando, as coisas permaneceram mais ou menos calmas até há uma semana atrás... Quando o Alberto tentou fazer-te mal, ele até não é má pessoa, mas não sei porquê detesta que lhe façam frente, ainda por cima mulheres."

Pedro reparou na careta de desagrado que Fantasia fez... Compreendia que ela odiasse Alberto, mas tinha aprendido a não ver tudo a preto e branco, aliás, a maior parte das coisas que interpretava eram cinzentas. Afinal de contas, Alberto tinha-o ajudado quando mais precisou, e estava-lhe muito grato por isso.

 

"Quando ouvi os gritos naquela manhã, e fui à cozinha e vi toda aquela situação, o sangue, Alberto gesticulando que nem um doido, e a espumar de raiva, percebi que algo mau se passara, e como não te via, fui-te procurar. Depois vi-te a fugir da Instituição e percebi que não regressarias, não queria que fosses sozinha, portanto fui atrás de ti... Mas perdi-te. Portanto, regressei à Instituição e fui buscar as tuas coisas, e alguma comida e água, com a ajuda de Filipa que disse que também te queria ajudar, embora não tivesse a coragem para fugir dali, e saí também, não me ia adaptar de qualquer forma, e nunca cheguei a conhecer-te. Pensei que irias pedir ajuda ao meu tio como era com ele que falavas, portanto telefonei-lhe antes de sair, e dirigi-me à sua casa, onde estamos agora. E vi-te. Fiquei contente por estares bem, pelo menos, relativamente bem. E foi aí, que desmaiaste. Ficaste muito fraca com o sangue que perdeste, e a tua fuga pela mata não ajudou muito. Portanto, desde há cinco dias tens ficado aqui a repousar. Tiveste febre muito alta, e passavas metade do dia a dormir, é perfeitamente normal que não te recordes, por enquanto... Mas basta de conversa fiada, já falei demais, só quero saber agora se aceitas a minha ajuda e companhia. Basta fazeres sinal com a cabeça."

Sabia que ela poderia considerá-lo um doido varrido, um psicopata qualquer, e que muito provavelmente não aceitaria a sua ajuda, mas tinha que tentar, nunca saberia se nunca o fizesse.

 

Fantasia estava perplexa, estava confusa com aquilo tudo, no entanto a expressão de Pedro parecia sincera.  Tinha aprendido a não confiar em ninguém a não ser em si própria, e mesmo assim errava demasiadas vezes. Iria aceitar, e acreditar em Pedro, que parecia verdadeiramente preocupado com ela. Acenou afirmativamente, para felicidade de Pedro que logo lhe mostrou um sorriso rasgado e genuíno.

 

"Obrigado Fantasia. Anda, segue-me. Deves ter fome!"

Levantou-se de rompante, abriu a porta e saiu. Fantasia seguiu-o, e foi apreendendo pequenos pormenores da casa, os tapetes rudes, pequenas flores em vasos, no estrado, junto da janela, algumas peças de renda que pendiam de um móvel tosco...

 

Havia um cheiro no ar, era... peixe! E começava a ficar com fome, já comia qualquer coisa, e aquele cheiro abria-lhe um apetite voraz. Chegados à cozinha, Fantasia encontrou um homem, que identificou como José, e uma mulher, com pele grossa curtida do trabalho, certamente, mas com um ar doce e maternal, que supôs ser mulher do pescador, como ele o confirmou a seguir, apresentando-a como Clarisse .

 

O casal mostrou-se extremamente simpático e as desconfianças de Fantasia, bem como o seu normal isolamento caíram por terra, e tornou-se afável. Já não se recordava de ser mimada assim há muito tempo. Jantaram na cozinha, numa mesa apertada, mas acolhedora, e comeram com fartura, embora Fantasia suspeitasse que eles geralmente não comiam assim. Comeu tanto e tão à vontade que até Clarisse , lhe arranjou um pouco de pão de milho e peixe para a viagem. Fantasia interrogou-se de que estaria ela a falar, mas continuou a comer.

 

Depois de comer, reuniram-se na pequena sala, que era contígua à cozinha e conversaram, sobre coisas banais, mas que pareceu a Fantasia uma conversa importantíssima , se bem que ela não participou muito na conversa, a sua capacidade comunicativa nunca fora das melhores, e até agora nunca lhe tinha feito falta, mas agora sentia-se um pouco irritada por não conseguir fazer perceber-se, ainda que gesticulando e falando atabalhoadamente, percebia-se.

 

A conversa assim decorreu, até que veio à baila a fuga de Fantasia e de Pedro. José, então informou os dois que tinha ouvido comentários dos pescadores acerca da responsável da  Instituição, oriunda da aldeia, e solteira desde sempre, que ela tinha acusado um funcionário governamental de assédio, pelas próprias palavras dos pescadores amodes ca sinhora era quas'uma sposa pa ele, tava sempre a fazer-le o qu'ele qria , e ele tinha uma mulher e inté uns puquenos , uma pouica vergonha...". Pelo que José conseguiu saber, Arminda fora despedida, e Alberto tinha tido graves problemas com a mulher, mas lá permaneceu casado, e perdeu estatuto e prestígio no emprego, embora não o tenha perdido. Mas o mais relevante para os dois fugitivos, era que o Director da Instituição já tinha ordenado que o procurassem, não com muito alarido, pois queria manter a máxima discrição, e não queria alarmar a população.

 

"Como eu já previa desde o início, não podem ficar aqui!"

 

Afirmou peremptoriamente José. Clarisse concordou, abanando a cabeça. Pedro olhou para o chão, não vendo outra solução. Fantasia... Levantou-se e disse que não! Embora detestasse a Instituição e tudo o que ela representava gostava daquela terra, tinha-se habituado a ela, ao mar, não queria deixar as coisas que conhecia e de que gostava... Gostava da sua rotina, da familiaridade das coisas.

 

Não houve outra opção senão partir, era partir ou ser apanhado, e perante esta situação Fantasia concordou em ir, mas perguntava-se para onde, não conhecia mais nada para além daquela pequena vila, desconhecia o tamanho do mundo, a sua aleatoriedade, a sua multiplicidade, semelhanças e diferenças, mas já tinha mudado tanto para conseguir aquela libertação que ansiava desde sempre, a libertação daquele peso que carregava e que não o sabia definir nem limitar...

 

*

 

O mar não estava calmo, nem estava tempestivo, estava... Ansioso, expectante pelo que haveria de vir. Ela também. Lambia-lhe os pés desta vez não descalços, mas sim, dentro de umas sandálias confortáveis que José lhe arranjara. Entrou para dentro, levando consigo algumas roupas que Pedro trouxera da Instituição, juntamente com alguns dos seus desenhos e materiais de pintura e ainda o farnel que Clarisse tinha gentilmente arranjado. Após ela entrar, entraram também Pedro e José, que pôs o motor do barco a trabalhar e os levou a abandonar o porto, que começava a ficar distante com Clarisse a acenar, composta no seu vestido de cores tristes.

 

Começava a ficar um pouco angustiada, pois o desconhecido assustava-a um pouco, tinha medo de não gostar, tinha medo de não se conseguir libertar, tinha medo que fosse pior, tinha medo... Pedro percebeu essa angústia e aproximou-se dela, sentou-se ao pé dela, e estendeu-lhe a sua mão, um pouco trémula, mas bondosa. Fantasia, com lágrimas que ameaçavam cair, via-o um pouco desfocado. Nunca dera a mão a ninguém, mas tinha medo, e precisava de algum apoio, carinho. Sentia-se completamente parva, desprovida de razão, mas aceitou a mão de Pedro. Ele apertava-a forte. Uma lágrima escorregadia molhou as mãos unidas de ambos. Ele olhou docemente para ela, embora ela não o conseguisse ver, tinha a cabeça baixa.

 

"Fantasia..."

 

Disse Pedro, deslumbrado com o que via.

 

"É uma ilha!"

Aquele pedaço de rocha vulcânica erguia-se agora diante deles, imponente e orgulhoso como Fantasia, verdejante e vivo, como se de uma criança se tratasse, uma criança traquinas que lhes tinha pregado aquela partida. Várias aves sobrevoavam a ilha, e dada a distância a que se encontravam, não conseguiram distinguir onde ficava a vila e a Instituição em que eles tinham vivido toda a vida, mas Fantasia sabia que ela estava algures lá, e que a tinha deixado, finalmente.

 

"É uma ilha, e eu nunca soube...!!"

Ela também nunca soubera. Mas agora sabia-o. E não iria se esquecer disso.

 

 

 


 

 

Este foi o último capítulo de Fantasia, o que não significa que Fantasia pare aqui, estanque. Ela continuará enquanto eu continuar, porque embora não seja eu, existe em mim, e eu nela. É difícil definir até quanto eu retiro aspectos da minha vida e coloco na de Fantasia. Fantasia... apenas! Queria agradecer aos meus amigos que me apoiaram e incitaram a escrever, como o JP e o Hélder (é sim com acento), e ainda à Mel de Vespas, a minha leitora mais assídua.

Por fim, queria dedicar esta história ao Jossy , porque foi a pensar nele que escrevi isto, porque és o meu Pedro, e me dás a mão quando preciso... Enfim, é por ti que sou irracional...

 

sinto-me: Um pco lamechas
música: All at once - Jack Johnson

27
Jan 08
publicado por Andi, às 16:35link do post | comentar | ver comentários (4)

Acordou com uma carícia húmida do primeiro pingo de chuva que caía do céu já não tão claro, como de manhã, o sol já havia passado, e encontrava-se mergulhado no horizonte, o céu tinha uma tonalidade esquisita, de um azul desmaiado, rosa claro, e cor de fogo. A nuvens adquiriam formatos esquisitos, contudo divertidos. Sabia que seria uma questão de instantes até o céu se fechar numa careta e fazer desaparecer as nuvens feitas de algodão e as cores para se transformar num véu preto. Era um instante fugaz, precioso e irrepetível, e, portanto, decidiu aproveitá-lo.

 

Durou uns escassos segundos a previsão que ela fizera, conhecia bem o céu daquele lugar, sabia-lhe os caprichos e as manias. Continuava a chover, e ela, lentamente se levantou. Estava dorida, doíam-lhe as pernas, as coxas,os pés, os braços, o nariz... Tinha o corpo dormente, mas a chuva que caía miúdinha servia para acordar, lentamente, cada bocadinho de si. Sentir a chuva a cair na sua pele, gota por gota, devagarinho, foi acordando-a do torpor em que se encontrava.

 

Inspirou profundamente, tentando organizar os acontecimentos recentes, e tentando decidir o que faria a seguir, pois estava sem lugar para onde ir, não tinha ninguém a quem recorrer... Estava só.

 

A chuva miúdinha penetrava na terra, misturando-se com esta, consumindo as saudades, e a terrra virgem exalava um odor húmido. Fantasia conseguiu diferenciá-lo quando inspirou durante alguns instantes. Conseguia associar perfeitamente o cheiro àquele lugar, memorizou-o. Gostava dele.

 

A chuva ia caindo com mais intensidade, como se a terra chamasse por ela, pedisse por mais. Deu por si a pensar nessa situação. Ninguém a queria chamar, ninguém esperava pela sua presença, não era a primeira vez que esse pensamento surgia na sua mente. Desde que se lembra que estava sozinha, simplesmente isso não ia mudar agora. Se bem, que no seu

íntimo, ela desejasse que houvesse alguém que esperasse a sua visita, não certa, mas a esperasse, se preparasse para ela, sem nada apenas com esperança.

 

As gotas grossas de chuva que embatiam nas copas frondosas das ávores verdes que ali se encontravam, iam molhando-a, o seu cabelo já se encontrava castanho escuro, por estar molhado, a roupa amarela da Instituição colava-se ao seu corppo, já de mulher, e os pés, começavam a ficar com lama. Lama e sangue. Descalços, tinham algumas feridas que tinham resultado da sua fuga da Instituição.

 

Fuga!! Finalmente tinha escapado. E agora que se encontrava livre tinha tantas opções, que nem sabia por onde iria... Decidiu que seria melhor sair dali, caso não se desse a situação de a irem procurar ali. Pedro vira-a, e ela podia jurar que ele a teria denúnciado mal chegasse à Instituição. Como ele a irritava! Com aquele ar arrogante, de sabe-tudo, e ao mesmo tempo, de distanciamento, de egoísmo, que irritavam igualmente Fantasia.

 

Seguiu lentamente um trilho que havia na mata, tentando absorver tudo o que havia à sua volta, gostaria de ser não uma viajante naquele lugar, mas sim parte do mesmo lugar, poder conhecer as plantas e os animais que por ali se encontravam escondidos ao pormenor, saber-lhes os movimentos, as expressões.... Ia tocando nos troncos velhos e rugosos das árvores, como se tratasse da palma da mão de álguem velho, que se tornara sábio através do labor da vida, um avô talvez... A noite estava escura, apenas vagamente iluminada pela lua em quarto crescente. E Fantasia foi vagueando pela mata.

 

*

Encontrava-se na praia, já estaria a caminhar há muito tempo, pois agora que parara para poder vislumbrar de novo o pôr do sol, como no dia anterior o fizera na mata, os pés doíam-lhe e as feridas ardiam. Mas, enquanto pudesse ter esses momentos de êxtase ao observar tais maravilhas, pouco lhe importava. Ver o mar outra vez, numa tonalidade azul-esverdeada, com laivos de branco da espuma, que ia e vinha uma vez mais molhar a areia, esta que perdoava as brincadeiras daquele menino maroto, consentindo  a sua volta e ida, uma e outra vez.  Avançou, lentamente, enterrando os pés na areia, sentindo os golpes queixarem-se daquele contacto indesejável. Mas foi avançando.  Fria! A água encontrava-se fria. Gostava da sensação que isso lhe transmitia, e foi passando a mão lentamente à superfície da água, como se fosse um animal qualquer à espera de festinhas. A água dava-lhe pela cintura. Nunca antes tinha estado daquela forma no mar, também nunca tinha estado livre como agora... Sentia vontade de se deitar, de descansar, nas não queria abandonar o mar, será que este se importasse que ela se deitasse ali, com ele? Lhe desse a mão e fechasse os olhos, só por um pouquinho?! Enquanto tentava tomar uma decisão, ouviu alguém chamar por si. Virou-se para trás, momentaneamente desperta dos seus devaneios, e viu-o. José, o pescador, esbracejando na praia, como um louco. Não percebia a razão daquele momento de ansiedade. José era um homem do mar, um homem que aprendera a ser paciente face aos caprichos do mar...

 

Chegou ao pé dela, mal podendo respirar, e por entre dois suspiros mais profundos apontou-lhe a sua casa, que ficava a pouca distância da praia. Fantasia não sabia como interpretar aquilo, sentiu-se confusa, cansada e com fome, mas por fim, lá acabou por aceitar o convite, afinal de contas, José era o único em quem podia confiar.

 

Ainda conseguindo ouvir o respirar pesado de José, e já podendo antever alguns pormenores da casa caiada de branco do simples pescador que ficava já a uns meros dez metros, Fantasia reconheceu também uma silhueta que a fez estremecer. Pedro estava ali!

 

Por momentos sentiu-se paralisar, a roupa encharcada, tornara-se pesada, e os pés não respondiam ao que queria... Tinha de sair dali depressa, tinha de conseguir escapar, não fugira da Instituição para ser apanhada daquela forma! Conseguindo,então mover-se, Fantasia conseguiu recuar uns passos, e virar-se, e então, inesperadamente, como algo tivesse accionado na sua mente, alertando-a do verdadeiro perigo, desatou a correr pela praia. José, a quem a reacção repentina de Fantasia não tinha passado desapercebida, agiu também, agarrando-a , antes que ela pudesse, efectivamente fugir.

 

O braço apertou-a, fazendo-a lembrar de Alberto, recordações essas que tentava afastar para um canto recôndito da sua memória, mas que agora ganhavam vivacidade, como se estivessem a ocorrer novamente naquela altura.

"Não vais a lado nenhum."

Disse calmamente o pescador, como se aquilo já fora predestinado antes, decidido sem o consentimento dela.

 

Com os olhos marejados de lágrimas, conseguiu ver Pedro avançando na sua direcção, certamente ostentando um sorriso de vitória e orgulho. Mas não conseguia afirmar com toda a certeza, estava prestes de rebentar de raiva e frustração!!! Como pudera ser tão ingénua a ponto de confiar em alguém que não conhecia, apetecia-lhe bater nele, fazê-lo sentir o mesmo jorro de sangue quente que ela sentira quando Alberto lhe batera, ele não podia devolvê-la à Instituição, morreria se para lá voltasse, ainda que o seu corpo se mantivesse vivo.

 

Pensamentos como este perpassavam-lhe a mente, cada vez mais depressa, aumentando num ritmo alucinante a sua raiva e dor. Sentia a cabeça a latejar, e faltavam-lhe as forças...Pôde ainda ver o sol levantar-se sobre o mar, e iluminar tenuamente a paisagem, antes de cair desmaiada no chão.

 

 

sinto-me: dormente

17
Jan 08
publicado por Andi, às 21:42link do post | comentar | ver comentários (7)

Os seus passos eram decididos, pé após pé, calcorreando o chão  branco sujo da cozinha, estava bastante nervosa, não sabia se o que iria fazer ia resultar... Respirou e aproximou-se da mesa, onde Alberto se apoiava, com as mãos. Começava a ficar branco como a cal. Isso deu coragem a Fantasia.

 

Já mais perto de Alberto, a sua respiração intensificou-se, bem como o seu batimento cardíaco se acelerou,  conseguia ouvir o seu próprio coração, conseguia ouvir-se... Gostava disso,sentia-se mais ela própria.

 

Alberto, completamente atónito com aquela reacção estranha da rapariga,  afastou-se da cadeira, não fosse o diabo tecê-las!

 

Não paravam os passos. Avançava destemidamente, o som dos seus passos ecoavam na cozinha, não havia outro barulho para além desse e do seu bater do coração, pequeno como ela o imaginava, contudo tão forte e resistente que poderia bater ainda mais forte. Os passos. Boom-boom-boom. Já a um metro de Alberto, soube que era agora ou nunca, tinha que se apressar!

 

Então, correu para a porta de saída que estava trancada e cuja a fechadura antiga só tem duas chaves que a possam abrir, uma que Arminda tem sempre em sua posse, e outra, que costuma estar na gaveta de um dos armários da cozinha e que,agora, Fantasia segurava entre as suas mãos trémulas e suadas. Não conseguiu abrir à primeira, mas após a segunda tentativa,lá conseguiu pôr a chave na fechadura. Abriu apressadamente, depois do clique, que numa outra altura lhe teria dado um especial prazer, pois adorava esse tipo de coisas antigas, transmitiam-lhe uma sensação de paragem no tempo, de imutabilidade, de segurança, que o tempo não passava, e assim tinha tempo para tudo... Mas não agora, agora não tinha tempo, tinha que sair dali!

 

 

Conseguia já ver a parte de trás da Instituição,bem mais maltratada que a frente,embora essa já o fosse bastante, aquela parte da casa era totalmente selvagem, as ervas daninhas despontavam em qualquer sítio, cismando em crescer caprichosamente, as dedaleiras pendiam do coberto que lá existia, poucas pessoas iam para ali, pensando que aquele lugar provavelmente era demasiado sinistro e sombrio para se estar. Mas Fantasia gostava, nem que fosse para estar sozinha. O verde que de dia, se mostrava claro e resplandecente, àquela hora era escuro e obscuro, contudo Fantasia conseguia antever como aquele local ganharia vida com o subir do sol no horizonte, ah, como queria ficar ali deitada para poder observar esse momento, saborear o que para muitos era banal, e que, se calhar por isso mesmo, se mostrava tão cheio de maravilha para ela.

 

Passa a porta. O seu pé direito pisa a terra das traseiras, que está cheia de ervas daninhas. Estão molhadas. Sabe bem. O outro pé acompanha. O ritmo sempre acelerado. Sente que tem um tambor e não um coração, como na procissão que viram o ano passado, a que foram obrigados a vestir a farda para os dias especiais, e que conseguia ser mais odiosa que a comum, claro que tinha sido Arminda que tinha tido tal estupenda ideia.

 

Vira o tronco para poder fechar a porta. A mão! Agarra-a. Com força! E trá-la de volta para a cozinha.

 

"Onde pensas que vais?! Tu não vais a lado nenhum, vais ficar aqui a limpar o sangue no chão e vais me fazer a porra do pequeno-almoço e depois vais ficar comigo o resto dos dias comigo, pelo menos enquanto eu permanecer aqui!! E depois, irás seguir as ordens de Arminda." O seu olhar tornara-se mais estreito,incidia sobre ela apenas, o seu sangue espalhava-se um pouco sobre o pijama dele.

 

Tentou soltar-se, esperneou e tentou dar pontapés, mas não queria fazer barulho, porque sabia que se o fizesse, não teria oportunidade de fugir como pretendia.

 

Mas não o conseguia fazer, sem fazer barulho. Então numa última tentativa, deu-lhe uma dentada na mão que a segurava, com força, fincou os dentes na mão dele, bem fundo.Tão fundo que Alberto soltou um uivo de dor, mas não daqueles finos, mas sim uma voz gutural que ecoava na cozinha branca, e que vinha da sua boca imunda.

"Filha de uma puta! Vais pagar-mas por esta,e bem caro!" Vociferava Alberto, enquanto a agarrava com as duas mãos, uma delas já a sangrar e com os dentes de Fantasia marcados.  Então, tentou aproximá-la de si, olhava-a com um ar lascivo, cheio de um desejo ambíguo, um desejo de querer mostrar de que ele era quem mandava ali! 

 

Fantasia, debatia-se cada vez mais, mas não podia concorrer em força física com Alberto, ele era muito mais velho e corpolento que ela, mas não se iria deixar dobrar, não perante ele. Não percebia o que ele lhe queria fazer...

 

Alberto começou a beijá-la violentamente no pescoço, de uma forma tão agressiva, que Fantasia cada vez mais se sentia assustada. Nunca tinha sido vítima de um acto tal, uma coisa era Arminda que media forças com ela, que apresentava um especial prazer em apoquentá-la.

Parecia que ia explodir, já sentia a cabeça a rodar, mas não não podia deixá-lo ali a fazer-lhe o que lhe parecia uma perfeita nojice...

 

"ALBERTO!!" Gritou Arminda. Encontrava-se à porta da cozinha, agarrada à bengala centenária, que por algumas vezes tinha servido para dar umas lições a Fantasia, pois acordara sobressaltada com os gritos.

 

Estupefacta, só conseguia abrir e fechar a boca repetidamente.Não conseguia perceber aquele cenário. Alberto a tentar abusar de Fantasia, o sangue dos dois, espalhados pela roupa, a fúria da rapariga. Aliás, percebia, só não queria acreditar.

 

Alberto também só conseguia balbuciar umas desculpas esfarrapadas em como tinha sido Fantasia que o tinha atacado e obrigado a fazer aquilo.

 

No corredor surgiam mais pessoas.

 

Fantasia viu mais uma oportunidade para fugir, e saiu dali a correr o mais depressa que podia, ainda com o coração a bater alucinadamente, a respiração ofegante, descalça, com as roupas cobertas por sangue e mesmo a cara, devido à queda que teve na cozinha. Mas nada lhe magoava, só queria sair dali, seja para que lugar for.

 

Ainda na cozinha, Alberto tentava explicar a Arminda que fora a rapariga que o tinha atacado e provocado e ainda, falto ao respeito de uma forma muito grave. Contudo,não se quis alongar mais, e partia já para a porta das traseiras quando Arminha lhe barra o caminho.

 

"Que estás a fazer,mulher?"

"Não vais atrás dela."

"Mas assim ela vai fugir, e a culpa será tua!!"

"Se ela voltar, tu serás o culpado do seu estado, acredita que é melhor para todos assim, deixa-a ir, senão conto o que há entre nós a toda a gente!!!"

 

A cara de Alberto transfigura-se totalmente, apresenta um ar culpado, e ele recua um passo.

 

"Bem me parecia, a tua sorte é o director estar fora este fim-de-semana."

Afirmou Arminda, que virou para dentro da cozinha e que passou a arrumar metodicamente, como sempre o fazia.

 

Alberto também foi para dentro, para o seu quarto.

 

 

Fantasia corria, não conseguia pensar em nada, nem imaginar no que estava a acontecer na Instituição naquele momento,já se encontrava a atravessar o jardim. Viu um vulto lá, mas como ia tão perdida de tudo, nem o conseguiu identificar. Era Pedro. Também corria pelo jardim. De pijamas, com o cabelo castanho ao vento, e chamava por ela.

 

"Ei, Fantasia, espera, quero ir contigo, deixa-me ajudar-te!!"

 

Mas Fantasia não parou,nem olhou para trás, não o podia fazer, tinha que continuar,não sabia se lhe restavam forças suficientes para sair dali uma vez por todas.

 

Saltou o muro da Instituição. Estava fora!! Que alegria irradiava, alegria que atenuava o cansaço, o medo que sentia, mas sentiu que devia continuar, tinha de ter a certeza que escapara. Dirigiu-se para a mata que se encontrava ali perto, Pedro sempre no seu encalço, corria bem ele. Mas apesar de estar calçado, e Fantasia não, ela conhecia bem aquela mata, e ele não e portanto não pode prosseguir.

 

 

*

 

Depois de estar no coração daquela pequena mata, cheia de flores silvestres e arbustos, e ainda arvores centenárias,que exalava um odor antigo, onde havia serenidade e tranquilidade, e não havia pressa, nem medo, nem regras senão as da Natureza, Fantasia deixou-se cair no chão e ficou ali horas a disfrutar a passagem do sol pelo horizonte, por entre as ramagens volumosas das árvores mais altas, tal como tinha pensado de manhã, e pensou como aquilo era bonito, e fechou os olhos.

 


Nota: Para quem pensa que isto é um fim de Fantasia, desengane-se,não é. Ainda. Quando for aviso, se é que tem alguma importância.
sinto-me: bem :D
música: I'll wait there for you - Civilian

03
Jan 08
publicado por Andi, às 22:45link do post | comentar | ver comentários (4)

Os seguintes segundos desvaneceram-se da sua memória, pois havia apenas olhado, boquiaberta para Alberto. Aquela situação era estranha, que fazia ele àquela hora ali, na cozinha? Ele deveria-se perguntar o mesmo sobre ela. Estava de pijamas, desgrenhado, mas completamente desperto.

 

Fantasia pousa a taça na bancada, e prepara-se para sair da cozinha. Contudo, não o conseguiu fazer porque ele a interpelou:

"Para onde vais?"

Ela revirou os olhos, mostrando-lhe que não lhe devia explicações. Apercebendo-se da atitude de rebeldia e atrevimento, que aquele olhar lhe pareceu, tornou a repetir, desta vez com uma voz mais grossa, mais :

"Para onde vais?"

Obstinada e determinada como era, Fantasia repetiu o olhar, desta vez evidenciando mais a sua resposta.

"Primeiro vais-me servir o pequeno-almoço, que tenho fome!"

Tornou Alberto com uma voz de comando, a que Fantasia reagiu com uma espécie de grasnido.

 

Estaria a ouvir bem? E mesmo que estivesse a ouvir bem, estaria Alberto a falar a sério? Quereria mesmo ele que ela lhe servisse o pequeno-almoço, enquanto ele descansava aquele corpo enorme e disforme nas cadeiras brancas da cozinha? Não a conheceria já minimamente para saber que ela não se regia pelas ordens de ninguém, muito menos dele, que a desiludira tão profundamente?

 

Enquanto Fantasia perdia-se nestes pensamentos, mostrando, por isso mesmo, um ar perdido, Alberto que já começava a ficar com muita fome, demasiada para seu gosto resolveu repetir a ordem, para o caso daquela retardada ainda não o ter ouvido:

"Não ouviste? Anda lá, que estou com fome!"

 

Apercebendo-se que, realmente, Alberto estava a falar ao sério, Fantasia recusou-se de uma forma tão evidente, que Alberto começava já a perder as estribeiras. Já havera se sentado na cadeira branca, que tinha rangido ligeiramente pelo seu peso, e agora, perante tal afronta, levantou-se de rompante, fazendo a cadeira virar perante a sua fúria. O seu vulto tornou-se, então enorme, e o cabelo cinzento, desgrenhado, e ligeiramente comprido contribui para lhe dar um ar mais assustador e sinistro. Avançou na direcção de Fantasia com uma determinação inabalável, já estava farto daquela pirralha que pensava que podia fazer tudo o que quisesse!

 

Então, com uma das suas mãos grandes e guedelhudas agarrou parte dos cabelos castanhos e compridos de Fantasia, e com o joelho deu-lhe uma violenta pancada na cara.

 

Sangue. Um jorro quente de sangue esguichou do seu nariz, escorrendo lentamente pela cara dela, fazendo uma espécie de curso, até à boca. Estava um pouco desnorteada. Sentiu sangue na boca e levou a mão à boca, ainda recuperando do choque. O nariz, na altura não lhe estava a doer, mas sentiu uma dor imensa, algo havia despertado nela, uma raiva e ao mesmo tempo pena por aquele homem que estava à sua frente. Que desprezível ser... Sentia ganas de o abanar, de o atirar contra as paredes, de o fazer experimentar o mesmo sabor quente do sangue, queria fazê-lo sentir indefeso, queria que ele soubesse o que era ser humilhado, queria...

 

Não. Não iria fazer nada disso, já decidira o que fazer, algo muito mais eficiente que isso. Tentou levantar-se. Uma mão no chão, uma mão na anca que estava magoada devido à queda que dera no chão, o uniforme sujo, o fio de sangue que pendia, o chão sujo, e ele, ali a rir-se na sua cara.

 

"Agora vai saber como obedecer-me e obedecer a Arminda, e a não se meter com os colegas!" Pensou Alberto, ainda com fome, convicto que Fantasia decerto lhe prepararia agora o pequeno-almoço. Em passadas largas, dirigiu-se para a cadeira que derrubara anteriormente, endireitou-a e sentou-se. Passou a mão pelo cabelo grisalho e tentou compô-lo.

 

Já de pé, Fantasia dirigia-se na direcção da gaveta onde se arrumava os talheres, os saca-rolhas, as facas, algumas chaves velhas, e pequenos objectos metálicos que aparentemente não tinham função alguma, mas que um dia, na opinião de Arminda iriam servir algum dia para algo.

 

"Preparas-me então o pequeno-almoço?"

Inquiriu Alberto. Fantasia acenou que sim com a cabeça. O sorriso de triunfo bailava nos lábios de Alberto, o que ainda provocou mais Fantasia. Fingindo então que iria preparar o pão, Fantasia abriu a dita gaveta, retirou de lá o que queria e decidiu fazer o que havera pensado.

 

O sol começava já a entrar na cozinha com uma vivacidade tal que não tardaria estaria toda a gente acordada...

 

Com os olhos semi-cerrados por causa da luz que entrava abundantemente pela janela, Alberto viu Fantasia avançar na sua direcção e percebeu que ela não iria de forma alguma preparar-lhe o pequeno-almoço....

sinto-me: gostava de poder dizer...

30
Nov 07
publicado por Andi, às 23:00link do post | comentar | ver comentários (4)

Estava sentada num das cadeiras escuras e desconfortáveis da cozinha. Comia vagarosamente o seu pequeno-almoço, cereais com leite. A cozinha à sua volta, branca, exceptuando as cadeiras, era incrivelmente escura... Inóspita. Era o costume. O costume de todos os dias serem iguais, de haver sempre a mesma rotina, as mesmas caras à hora exacta, as mesmas tarefas repetidas indefinidamente, o costume. Era o costume que a tornava tão amarga, muito pouco receptiva e escura, apesar da sua aparente brancura. Como Arminda, conclui Fantasia esse seu pensamento.

 

Pela janela havia uma ponta de luz ténue e baça que atravessava a cortina alva rendilhada e que iluminava fracamente a cozinha. Estava bastante escuro na rua, apesar de ser sete da manhã. O Verão já se havera ido embora, e nem se havia despedido dela... Queria sair à rua, essa era a razão pela qual tinha acordado mais cedo que todos, queria correr atrás do Verão pedir que ficasse, com o Outono e o Inverno, porque não poderiam ficar todos? Porquê cingir-se à monotonia de cada um, auto-impor a solidão, porquê o abandono, a solidão, o isolamento?Mas a escuridão fazia-a reprimir esse seu desejo de sair dali, fazia-a demorar a comer o pequeno-almoço.

 

Remexeu a colher por entre os cereais ensopados, nada daquilo lhe estava a saber bem... Mas tentou não pensar muito nisso, não tinha mais que comer. Repentinamente surge um pensamento na mente de Fantasia vindo do nada, nem sabe como o foi buscar, mas a verdade é que se interrogou como o seu búzio havia parado às mãos de José.... Será que? Não! José jamais poderia ter uma relação com um gatuno, como ela designava Pedro. O seu único amigo para além do mar era amigo, era cúmplice do ladrão do seu maior tesouro. Ainda que o tivesse devolvido, era sinal que Pedro o havia dado, ou será que José o havia tirado a ele? Era isso, José ao reconhecer o grande búzio que lhe havia dado com certeza reprimiu o rapaz e tirou-o. Restava-lhe agora saber em que circunstâncias isso tinha acontecido... Isso causava-lhe uma enorme curiosidade, pelo que decidiu apressar-se a comer, pois embora fosse Domingo e a irritante campainha só tocasse às nove, não se podia dar ao luxo de ser apanhada. 

 

Já com a taça nas mãos delicadas, e no entanto fortes, Fantasia dirigia-se para a bancada da cozinha. Mas sente-se observada, há alguém na cozinha... Vira-se e vê Alfredo.

sinto-me: useless
música: Home - Foo fighters

27
Nov 07
publicado por Andi, às 22:24link do post | comentar | ver comentários (4)

Encaminharam-se então as duas pelo carreiro de pedra batida que ligava a Instituição ao caminho principal. Antecipando a visita ao mercado, Fantasia parecia nem reparar nos pequenos pormenores por que reparava habitualmente quando ali passava. As várias teias de aranha que pendiam dos vários arbustos que ladeavam o caminho, brilhavam sob aquele sol com resquícios estivais, inúmeras ervas daninhas brotavam entre as várias flores silvestres, que por ali desabrochavam. Um momento de fragrâncias, cores que Fantasia sempre presenciava e apreciava quando ali passava, não se deu, não desta vez.

 

O mercado ficava para lá do porto, quase no centro da vila. Filipa, que era bastante mais velha que Fantasia sabia o caminho, embora não o fizesse muitas vezes, mais certo que Fantasia era certo, sabia-o bastante bem, pois ao contrário do que a maior parte das pessoas pensava, ela tinha muito boa memória. Foi calcorreando as ruas apertadas, de calçada, sempre com Fantasia no seu encalço. Não haviam muitas pessoas na rua àquela hora da matina, a maior parte encontrava-se ainda em casa, e preparava-se para ir trabalhar ou ir para a escola. Havia ainda duas ou três tabernas, onde apenas se encontravam os seus clientes mais habituais e madrugadores. A vila, encontrava-se, assim, a acordar lentamente, sem pressas. Feliz por não ter pessoas que a conhecessem ali, que a pudessem olhar  como se soubessem tudo o que ela havera feito, como se soubessem a sua origem, todos os seus defeitos. Sentia-se constantemente assim quando estava na Instituição, mas não ali, nem na praia, enfim, fora da Instituição.

 

Atravessaram ruas e ruelas até pararem em frente a um grande portão de grades pretas, e com um letreiro grande, e já desbotado pelo tempo caprichoso, a dizer "Mercado". Um sorriso leve surgiu nos lábios carnudos e rosados de Fantasia, nunca pensara em vir mais ao mercado, desde pequena.  A lista elaborada por Arminda e com vários produtos inusuais , devido à presença de Alberto, foi retirada da pequena mala que Filipa levava na sua mão. Encaminhou-se então para dentro do portão preto, contudo , ainda antes avisou Fantasia:

"Não te afastes muito, eu faço as compras sozinhas, depois só preciso da tua ajuda para as levar, encontramo-nos aqui dentro de meia hora." 

Fantasia assentiu.

 

Primeiro, os seus olhos tiveram que se habituar à vivacidade de todo aquele local, o reboliço das pessoas, o apregoar dos vendedores, o ar impregnado de tantos sabores que até lhe custava respirar, os vários animais que por ali passavam à procura de alimento, de entre os quais cães e gatos, provavelmente vadios.

Fantasia arrepiou-se quando viu o primeiro gato, grande, cinzento e com uns olhos verdes redondos e brilhantes. Olharam-se mutuamente, o olhar orgulhoso e nunca submisso do gato afastou-se altivamente do olhar de Fantasia, e seguiu em frente. Fantasia segui-o atentamente com o olhar. Não gostava de gatos, era um facto. Mas não encontrava razões convincentes para isso. Irritavam-na, simplesmente. Adiante, encontrou as primeiras barracas montadas pelos comerciantes.  Legumes viçosos regalavam os seus olhos, a mistura confusa de frutas, sementes, vegetais de todas as qualidades, remexidos pelas pessoas que já por ali haveriam passado. Parou por uns instantes tentando vislumbrar todas as pessoas que por ali haviam passado, as suas caras, a sua expressão ao examinar os produtos, os olhares atentos aos preços, todo o passado e história que havia ligado àquela simples pessoa que num certo momento da sua vida apenas queria comprar vegetais por um preço acessível. Em certos momentos era assim que as outras pessoas se resumiam. E ela? Era apenas uma outra pessoa que pensava nas outras, embora o contrário não acontecesse.  Decidiu continuar. Mas imobilizou-se novamente, pois reparara que havia uma rapariga que, com um aspecto alheio a tudo, introduzia os seus compridos dedos no saco de feijões que lá haviam. Mergulhou completamente os dedos, e remexeu-os com um prazer singelo.

 

Sorriu perante aquela cena e prosseguiu. Havia mais adiante um forte cheiro a maresia, aquele cheiro inebriante que acorda qualquer um e que a levava a relembrar o seu passeio com José , o pescador, as vagas do mar, o balançar suave do barco... Foi seguindo a forte fragrância e encontrou uma banca de peixe. Horrorizou-se com os vários peixes mortos expostos em filas, alguns apresentando o ventre esventrado, outros ainda inteiros, mas todos com os olhos vidrados e exalando aquele cheiro característico. Perante aquela deprimente visão, Fantasia virou as costas e começou a afastar-se quando uma voz masculina, no entanto, muito doce a chamava.

"Eh, menina!"

O sotaque era cerrado, e tão característico que Fantasia reconheceu, de imediato, aquela voz. José.

 

Este foi ao seu encontro. Havia alguns dias que não o via, e sentia a sua falta. Falta essa também sentida pelo simples pescador. Aproximando-se dela, disse-lhe:

"Nunca mais apareceste na praia, nem no porto. Fiquei à tua espera, para dar mais alguns passeios no meu barco. O mar também tem estado à tua espera. Tem sentido a tua falta. Vejo nas marés e na espuma suja que ele tem, que tem saudades tuas."

Fantasia baixou o olhar, indicando que tal não lhe havia sido possível. Por seu lado, José que compreendeu imediatamente tentou animá-la com um sorriso meigo e gentil, habitual vê-lo assim.

"Acho que isto te pertence"

Disse ao retirar da sua sacola de lona o búzio que antes lhe tinha dado, e que haviam retirado. E que agora lhe davam novamente.

 

Recebeu o seu búzio nas mãos trémulas e agradeceu com um trémulo sorriso, pois na altura, nem conseguiu agradecer como queria, tal era a satisfação.

 

 

*

Já a noite caía, lenta, densa e escura e assustava-a com  a sua escuridão... Encolheu-se mais um pouco na sua cama e abriu momentaneamente os olhos para vislumbrar o seu búzio antes de adormecer. E relembrou-se, novamente, do som e do cheiro que dele saía e que lhe recordavam o mar...

sinto-me: ...
música: Photograph - Nickleback

13
Nov 07
publicado por Andi, às 22:44link do post | comentar | ver comentários (2)

Vestiu o uniforme de sempre. Nem olhou para si no espelho, partido no canto inferior direito, esconjecutrado , que havia no seu quarto, desde... Bem, sempre! Sempre que se lembrava da sua vida, todas as suas memórias, vivências haviam se passado ali, na Instituição, tudo o que era anterior a isso, não importava, era como se não existisse. Mas esse pensamento não perpetuou muito na sua mente, não lhe importava o espelho, mais que velho, que estava no seu quarto, nem o facto de não gostar de se ver no espelho, tão pouco se o seu traje estava desalinhado. Encontrava-se extremamente curiosa acerca do que lhe iria acontecer, não sentia medo, isso não, sentia uma fascinação, como se o facto de lhe ter sido entregue um castigo que ela na sabia como iria decorrer e quem a iria supervisionar fosse algo de bom, excitante. Não era exactamente isso, era apenas a novidade, o perfume ténue e disfarçado que o desconhecido oferecia aos seus sentidos, que ela captava mas não conseguia desdobrar e perceber os seus contornos, não conseguia materializar.

 

 

Já na parte exterior da Instituição, no coberto, como lhe chamavam, Fantasia sentou-se num banco de pedra rude que ali se encontrava, languidamente, a observar o céu tingido de cores que não existiam, sentiu vontade de pintar aquela paisagem, mas sabia que não podia, por enquanto... O Verão já findava, e o Outono já se fazia sentir. Os frutos maduros do Verão, que anteriormente se encontravam cheios de sumo doce, e que ostentavam alegremente cores vivas, agora começavam a perder a pujança de outrora, ficavam nostálgicos, como Fantasia pensava, e, por um qualquer desgosto, deixavam-se cair com as folhas, também amarelecidas.

O vento já não se mostrava meigo como no Verão, insurgia-se contra alguém, fazia levantar as folhas, e fazia-as rodar num rodopio de cores. Contudo, era no mar que Fantasia mais poder ver diferenças, apesar de não o poder ver, conseguia-lhe adivinhar as ondulações, a espuma branca, a cor indefinida, todo o mistério que o envolvia.

 

Envolta nestes pensamentos, e tentando adivinhar qual o tempo que faria naquele dia, não deu pela presença de Filipa, uma das suas colegas mais velhas. Alta e esguia, com olhar melancólico, escuro, morena por natureza, Filipa era uma das pessoas mais calmas da Instituição, de tanto que, por vezes era completamente apática a tudo, não parecia desperta. Era, provavelmente das pessoas com quem Fantasia se dava melhor ali. Surpreendida, Fantasia pôs-se de pé num salto, e esperou pelas indicações da sua suposta supervisora. Era normal eles fazerem várias tarefas, dividirem o que há para fazer, se bem que Fantasia nunca participava, todos tentavam ter o mínimo de contacto com ela. Achavam-na diferente, esquisita.

 

Apesar de tudo, a rapariga não deixou de ficar surpresa, esperava alguém detestável , que a fizesse passar um dia árduo, com muito trabalho, que mal a deixasse respirar, não fazia sentido. E se fizesse, era algo que ela não compreendia!

 

Filipa, com a sua voz monocórdica e sonolenta, disse com uma pronúncia muito própria dela que elas deveriam ir ao mercado, que lhes tinha sido dado uma lista, a qual tinham de seguir rigorosamente, sublinhou Filipa.

 

Mais uma vez, Fantasia abriu e fechou a boca de espanto, os olhos arregalados. Mais surpresa era difícil. Tentou então estabelecer contacto com Filipa, era raríssimo ela falar, e quando o fazia era com bastante dificuldade, e só com esforço, as pessoas compreendiam completamente o que ela queria dizer.

 

Vamo pó mecad da via?" disse atabalhoadamente.

Filipa assentiu.

 

Deu um salto de satisfação. Havia anos que não ia ao mercado! E gostava tanto, trazia lhe tantas recordações....

sinto-me: inútil
música: Mr. Brightside - The Killers

22
Out 07
publicado por Andi, às 20:16link do post | comentar | ver comentários (4)

Após passar três dias miseráveis encafuada no seu quarto húmido e, por vezes, tenebroso e só saindo para comer qualquer coisa à cozinha sempre completamente sozinha, pois dispensava e até evitava companhia, Fantasia encontrava-se mais angustiada do que nunca. Precisava de sair dali, julgava-se sufocar num desespero claustrofóbico. Detestava estar enclausurada, e eles sabiam-no!! Sentia-se tremendamente injustiçada!

 

A porta escura e pesada do seu quarto foi aberta lentamente, como se estivesse impregnada de uma preguiça tal que não quisesse abrir. Fantasia olhou. Era Arminda. Desviou o olhar.

 

O seu quarto encontrava-se quase vazio à excepção dos seus quadros, colecções e todos os bizarros objectos que encontrava nas suas vagueações. Eram, para ela a única fonte de luz e cor no seu quarto pintado de branco, com uma única janela não muito grande de madeira, mas pintada igualmente de branco. Não dormia ali mais ninguém, ao contrário do que era comum na Instituição, pois todos os seus companheiros de quarto recusavam-se a dormir na mesma divisão que ela. Sentiam-se intimidados com a sua presença, amedrontados, sempre sem saber o que esperar, sem saber qual a sua reacção. Consideravam-na a mais estranha e "atrasada" da Instituição e ela sabia-o, mas esse facto não a alterava minimamente.

 

 

Arminda sentou-se na velha poltrona originalmente preta, mas agora, desgastada pelo tempo adquirira um tom baço de cinzento escuro. Pousou as mãos no colo, aclarou a voz e disse:

"Não precisas ficar mais tempo no quarto, o castigo já passou."

Ao ver Fantasia mostrar um olhar de esperança acrescentou:

"Essa parte do castigo já passou. Decidimos eu, Alberto e, claro, o Sr. Dr. Fernando que não deverás passar mais tempo no quarto. Vais trabalhar. Não trabalhos muito pesados, claro. Mas, por exemplo pequenas tarefas como cuidar do jardim que bem está a precisar e fazer recados, ou ir ao mercado da aldeia, isto está claro com a devida supervisão. Foi do consentimento de todos que isso seria uma medida para te ensinar alguma disciplina e alguns valores que pareces não ter..."

O olhar anterior de esperança desvaneceu-se e deu lugar a um olhar carregado de desconfiança e cautela. Contudo Arminda decidiu ignorá-lo e saiu com tanta cerimónia com quanta havia entrado. Só que, desta vez, Fantasia reparara que a porta fechou-se com mais agilidade, mais depressa do que havia aberto...

 

Sentou-se na poltrona onde havia poucos instantes Arminda havia estado e perguntou-se sobre a continuação do seu castigo... Não seria pior que estar ali fechada, isso ela sabia. Mas que supervisão estaria ela a falar? Teria que trabalhar muito arduamente? Faria isso o dia inteiro?

 

Deixou-se divagar nos seus pensamentos e não tardou a noite, bem como o sono, chegaram, então Fantasia dirigiu-se à sua singela cama e foi dormir ainda pensando no que o amanha lhe reservara.

música: Negras como a noite - Xutos & Pontapés

18
Out 07
publicado por Andi, às 19:01link do post | comentar | ver comentários (8)

Perplexa, Fantasia estancou perante os dois responsáveis, por assim dizer. Arminda, que já conhecia perfeitamente, para seu desagrado, e o seu anjo da guarda, que se lhe revelava, pouco a pouco, uma desilusão. O olhar inquiridor e sem vida de Alberto que a perscrutava à busca de algo de maldoso, um defeito qualquer a denunciasse e que a pudesse vergar e envorgonhar. E, depois, obviamente o facto de Alberto parecer amigo de Arminda fazia com que a rapariga desconfiasse instintivamente dele. Aliás, achava que havia algo de inócuo naquela relação, aparentemente amistável, pois duvidava seriamente que alguém tão amargo como Arminda pudesse ter amigos, pudesse vislumbrar algo mais que não fosse a disciplina e a honra daquela Instituição, com tudo o que isso significava, pois Fantasia não percebia tanta devoção por parte de Arminda.

 

Alberto e Arminda igualmente paralisaram perante Fantasia. Arminda que queria parecer recta e justa perante Alberto aclarou a voz o mais que pôde, e disse a Fantasia :

"Minha menina, vai já directamente para o seu quarto e vai ficar durante duas semanas sem sair da Instituição, nem para aqueles passeios à praia, nem para outra coisa qualquer... E o seu material de pintura vai ficar guardado também, entretanto."

Fantasia continuava imóvel. Parecia não ter percebido o conteúdo da conversa de Arminda, ou então estava espantada tal pela maneira educada como a sua responsável havia lhe falado. Ela voltou a repetir o que havia de dito, contudo, numa forma mais infantil. Nada aconteceu.

"Não ouviste o que a Arminda disse?? Vai para o teu quarto já! Ah, e estás proibida de falar com o Pedro, ou de sequer te aproximares dele. Agora vai, antes que o teu castigo aumente!!"

Alberto ao falar começara a ficar vermelho e a comprimir nervosamente as mãos.

 

Fantasia ainda estava pregada ao chão, só os seus olhos se moviam, e saltitavam entre Arminda e Alberto, completamente perplexos. Por um lado, a gentileza de Arminda, por outro a brusquidão do seu anjo da guarda, e finalmente, o seu castigo... Mas de quê? Não deviam estar a falar do que aconteceu com Pedro...Ela só queria reaver o seu búzio, que lhe fora roubado!! Mas, aparentemente era disso mesmo que estavam a falar.

 

Então num gesto de absoluta convicção abanou a cabeça muitas vezes. Percebendo a teimosia da rapariga e a recusa perante o castigo, instalou-se uma discussão acalorada. Alberto gesticulava muito, e queria que fosse aplicado um castigo severo a Fantasia, não só pela sua agressão, mas também pela sua falta de educação e respeito pelos seus responsáveis. Arminda, por sua vez, tentava amenizar a situação, e confortar Alberto dizendo que o castigo seria irrepreensível, e um exemplo para todos naquela Instituição, e ainda, que Pedro estaria na mais perfeita segurança ali e que Fantasia não o iria incomodar.

 

A conversa decorria, entretanto, Pedro alertado pelo alarido apareceu na sala e viu os três. Fantasia que o fulminou com o olhar e que, finalmente se libertou da falta de movimentos e se dirigiu ao seu quarto pois viu que nada poderia fazer, por enquanto, e num misto de resignada e magoada pelo que o seu anjo da guarda se revelara, arrastou-se pelo corredor e entrou na terceira porta da direita. Ainda foi interpelada por Pedro, mas ele percebeu que não valia a pena dizer nada, e também não queria arriscar-se a ser atacado mais uma vez, e piorar a situação da estranha rapariga, que pelo que ele podia ver já era má o suficiente.

 

Durante meia hora Pedro conversou longamente com Alberto acerca do castigo de Fantasia. Mas não mudou nada. Tudo se manteve, e se ele não parasse com aquela conversa quem seria castigado seria ele.

 

Sentindo-se impotente, Pedro dirigiu-se para o seu quarto, o segundo da direita. No seu pensamento apenas o que o alegrava era o facto de Alberto só ficar mais três dias ali...

sinto-me: nem sei!
música: Rain - Breaking Benjamin

02
Out 07
publicado por Andi, às 19:47link do post | comentar | ver comentários (8)

Completamente encharcado, Pedro chegou a arrastar-se à Instituição. A tiritar, e um pouco arroxeado, pois a água naquela altura do ano ficava bastante fria e desagradável, relembrou o seu encontro,atribulado, diga-se, com Fantasia. Não lhe sabia o nome, tão pouco a história, os gostos, os defeitos, as qualidades, as pequenas manias, os indeléveis tiques que a marcam, entre inúmeras coisas, como única e insubstítuivel. Não sabia por enquanto, mas haveria de saber. A sua curiosiade inata o impelia a isso, a perceber aquela rapariga que apenas por um búzio patético o atacou. Que parecia tão desligada de tudo e de todos.

 

 

Assim apareceu na sala comum, molhado, cansado e pensativo. Arminda e Alberto, que ainda continuavam a falar em surdina, e com um ar cúmplice, todavia não uma cumplicidade expressada verbalmente,que seja pública, era uma espécie de segredo só deles, viram-no entrar em tais condições e atenderam-no imediatamente. Conscientes do que havia acontecido, ambos, Arminda e Alberto se mostraram bastante receosos e apreensivos quanto ao sucedido. Pedro nada lhes contara, dissera apenas que tinha ido passear ao porto, e havia escorregado e caído à água, contudo essa história não convenceu nenhum dos responsáveis.

 

Não lhe tinha ocorrido nada melhor para dizer, mas não podia simplesmente denunciá-la, seria demasiado desonesto da sua parte, pois, no final de contas, tinha sido ele a quebrar as ordens dadas, se bem que na altura desconhecia que haveria uma reacção tão intempestuosa.

 

 

Após confortarem e certificarem que Pedro estava bem, decidiram ir novamente para a sala conversar acerca do sucedido. Alberto encontrava-se mesmo muito zangado. Pois, afinal, era ele que estava responsável por Pedro, perante a lei, era ele o tutor legal dele. E, visto isso, tinha obrigações e deveres. A sua finalidade, como funcionário governamental era garantir a segurança de Pedro e também um bom nível de vida, que ele não tinha com a sua família. Sentia-se extremamente responsável e aquela rapariga atrevida já estava a passar das marcas!

 

-Ela não tem culpa, é assim mesmo, tens que compreender que ela nasceu atrasada, coitadita!

Dizia Arminda, que acima de tudo queria salvaguardar a dignidade e respeito da Instituição, e que interiormente arquitectava uma forma de fazer Fantasia arrepender-se dos seus actos e pelo trabalho que lhe dava.

 

- É indiferente, os responsáveis aqui deviam ser isso mesmo. Deviam olhar pelas pessoas que aqui estão! Não sei se será boa ideia deixar aqui o Pedro. Uma pessoa perfeitamente normal como ele, aliás, um rapaz extremamente educado e inteligente, duvido que a convivência com essa rapariga lhe vá fazer bem. Ainda por cima rapariga! Deviam ter mais controlo sobre ela. Completamente inadmissivel esta situação. E, principalmente, não deviam deixá-la abandonar a Instituição sem a supervisão de ninguém, é, honestamente, um atentado à segurança das pessoas que perto daqui passam ou vivem.

  Volveu por sua vez Alberto, já sentindo uma vaga de calor a corar-lhe a face só de pensar que aquela simples e insignificante rapariga havia desafiado todas as regras e atacado o seu protegido sem razão nenhuma. Aliás, mesmo que houvesse razões para isso, não o poderia fazer. Afinal de contas era uma rapariga, uma mulher!!! Não parava de pensar nisso, incessantemente essa ideia ocupava-lhe a mente, toldava-lhe o raciocínio... Aquilo tudo parecia-lhe muito surreal.

 

- Tenho a certeza que houve uma razão perfeitamente aceitável para o sucedido, mas em qualquer caso, vou falar muito seriamente com Fantasia, tentar fazer ela perceber que o que fez é mesmo muito errado, e se tal for requerido,será castigada.
 

Arminda conseguiu acalmar Alberto com tais palavras, não obstante ele quis certificar-se de que aquela pirralha iria aprender o seu lugar! Apesar de ser um homem extremamente calmo, havia certas situações, irregularidades como esta que o enervavam profundamente.

 

- Certifica-te então disso.

Atalhou o homem.

 

 

Num dos quartos, Pedro pensava numa forma de devolver o búzio e de se desculpar pelotão evidente e, aparentemente, tão grave erro que cometeu ao ir ao quarto dela e tirar algo que não lhe pertencia. Reflectiu, da mesma forma, de um meio que o pudesse aproximar de semelhante ser, de tão singular que lhe apareceu.

 

Num timing quase perfeito, Fantasia apareceu na sala comum  e deparou-se com os olhos inquisitivos de Arminda e dos, cada vez mais, vazios e mortiços olhos de Alberto...

 

sinto-me: melhor é quase impossível...
música: Smells like teen spirit - Nirvana

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