Does it make any sense?! No? So, welcome.
04
Mar 10
publicado por Andi, às 15:12link do post | comentar

CHOICE by ~PRETTYLINES on deviantART

 

 

 

Engraçado como as quase infinitas variáveis se apresentam perante nós como escolha que podemos tomar, como decisões que apenas dependem de nós, dos nossos caprichos, apenas nós, eu, o indivíduo sabe. Temos esse poder, pelo menos gostamos de pensar que sim.

 

A análise analítica das várias opções leva-nos a uma solução que muitas vezes não desejamos. Evadimo-nos com desculpas, subterfúgios e dissimulações. A escolha pode ser complicada. Podemos evitar ter esse tipo de compromisso, escolher é nossa culpa, pesa sobre nós.

 

*

Rita ia todos os dias ao mercado, comprar fruta fresca para a família. Daquela fruta que reluz e é gula em toda a sua forma, que apetece trincar só para saber como é. Frutas com muitas cores, muitas frutas. Era sua responsabilidade escolher a melhor fruta para os seus filhos e família. Vestia a sua roupa preparada por si no dia anterior, que jazia sobre uma cadeira simples de madeira, no canto do quarto. Vestia-se lentamente, com parcimónia, era um ritual matinal. Esse ritual incluía passar água pelo rosto, sem olhar ao espelho, pentear o cabelo, arrumar o quarto, e abrir a janela do mesmo, para que pudesse arejar. Era a primeira a levantar, preparava o pequeno-almoço da família. Papas de aveia era geralmente o que se comia. Depois de todos comerem, era a sua vez de comer, sempre com calma, mas uma calma energética, sabia que o dia seria longo. Arrumava a cozinha e saía para o mercado, ainda de manhã.

 

 

Sabia quais os melhores vendedores, sabia identificar a fruta que já estaria há dias nos sacos de serapilheira, aquelas que teriam hóspedes a alimentarem-se dela própria, destruindo-se, as maçãs farinhentas, as laranjas insípidas... Tocava, via e cheirava. Levava sempre o mesmo dinheiro, numa carteira bege, feita por si. Quase nem precisava regatear os preços, tal como conhecia os vendedores, estes conheciam-na. Era uma relação cúmplice de negócio, olhares e gestos, eram os intermediários na negociação.

 

Percorreu os corredores estreitos entre as bancadas não só de fruta e vegetais, bem como de flores, tapeçarias, especiarias, era possível encontrar muita variedade de produtos no mercado, mesmo produtos que não fossem comuns de um mercado. Havia um agradável aroma no ar, não conseguia saber de onde vinha. Vinha de todas as bancadas e envolvia-se em si, vinha de si também. Encontrou um novo vendedor no mercado, e foi ver que frutas teria.

 

Tinha frutas estranhas como abacates, mangas, papaias, frutas extravagantes, na sua opinião. Nunca tinha experimentado ou comprado, só comprava produtos locais, como tal não sabia analisar, como era seu costume, aquelas frutas. Mas passou sempre em frente.

 

Teria continuado se o vendedor não a tivesse chamado. Ele expôs-lhe as frutas que tinha arrumadas detrás na bancada, frutas que eram praticamente o mesmo preço que as locais. Rita rejeitou. O vendedor insiste, dá-lhe a cheirar as frutas, até parte uma e dá-lhe a provar. Nos dias seguintes recriminou-se por ter provado, esse instante em que as nossas percepções mudam, e a escolha já não pode ser feita correctamente. Fechou os olhos quando provou e gostou, teria comprado mesmo ali, se não fosse ela, se Rita não tivesse essa obrigação perante a família de lhe comprar fruta fresca que gostassem e que não fosse cara. Contudo aquela não era, porquê rejeitar? Porquê não escolher aquela? Poderia fazê-lo, mas não o fez.

 

Chegou a casa com um saco do mercado, como habitual. Os filhos queixaram-se que algumas frutas tinham bicho, mas esse pequeno erro passou despercebido.

 

Nos dias seguintes que lá passou, teria que passar pela bancada do novo mercador, para comprar a fruta, aquele cheiro impregnava-lhe a roupa e toldava-lhe o pensamento. "Quero comprar", pensava ela, mas punha a mão no bolso e apertava a carteira bege, que lhe relembrava as suas obrigações. E passava em frente. Por vezes, tentava olhar para a outro lado do mercado, mas não havia nada que lhe chamasse a atenção. Ainda para mais, o mercador chamava-a, anunciava as frutas.

 

 

Passou a sonhar com as frutas, comia até rebentar das frutas, num deleite extasiante, ficava toda suja com o sumo doce, lambia os dedos e acordava em sobressalto. Estou parva, pensou ela, mas os dias foram-se seguindo e a escolha cada vez mais se debatia, estas frutas ou as outras, estas ou as outras, estas as outras, as outras...

 

Passadas algumas semanas quando não dormia quase nada, dirigiu-se ao mercado. Nesse dia o mercador novo tinha ainda mais frutas em exposição e ainda mais coloridas e sumarentas, para mal dos seus pecados, ele estava a oferecer algumas às pessoas, para poderem provar. Salivava, também queria. Mas não se conseguia mover, contemplava as frutas, na sua exuberância, e a escolha desapareceu. Estava presa naquele limbo de indecisão, já não tinha escolha. Estava apenas hipnotizada por uma mistura de cores e cheiros tropicais, não encontrava já a sua carteira bege que lhe permitisse voltar à escolha. Tinha-se perdido, não conseguia sair daquele lugar.

 

 

Os dias passaram, os anos, essas divisões de tempo que não interessam a quem está perdido, a quem não tem escolha. Rita permaneceu sempre, voltada para a bancada, com o olhar extasiado para o vazio, pois tempos depois, o mercado foi mudado de lugar. A indecisão deu espaço ao nada.

música: L'autre valse D'amelie - Yann Tiersen

02
Nov 09
publicado por Andi, às 21:12link do post | comentar

Olhou para o homem espantada e nada disse, nada tinha para dizer, não sabias as Palavras, começava a duvidar de alguma vez ter sabido, tinha-se intrometido na conversa deles, no seu espaço, e isso era algo que a envergonhava. Engraçado que ela não conhecesse as Palavras, ela que procurava pela evidência da possibilidade da genuidade, do sorriso verdadeiro, da felicidade profunda e fugaz, momentânea, como só a verdadeira felicidade pode ser. As Palavras... Teria que se aplicar mais no seu projecto, mas tanto se interpunha no seu caminho, deixava-se levar pelos pequenos pormenores, divagava um pouco às vezes, mas os últimos devaneios deixaram um espaço e um tempo para pensar no que deveria fazer, para analisar verdadeiramente o seu progresso no projecto.

 

 

"Sei que me estava a observar."

 

"Não o quis fazer. "

 

"Não me vai pedir desculpa?"

 

"Não o conheço. Nada sei sobre si, provavelmente já me acotovelou na rua, enquanto passava apressado para a sua reunião executiva, ou é meu vizinho e passa o dia a bater na minha parede pela música que ouço, se calhar já me viu cair na rua e não me deu a mão. Deveria desculpar-me?"

 

"Não. Estou farto de desculpas. Não me apresentei, mas também não o farei. Não voltarei a este café tão cedo. Ficou tingido por sentimentos negativos."

 

 

Não sabia o que dizer (mais uma vez) ao estranho. Olhou para o lugar que ele deixara vago e reparou que a mulher já tinha ido embora. A sua atenção foi atraída pelos odores doces do café, os doces quentes que saboreava imaginariamente, o sabor ácido do café feito pelo dono pequeno e gorducho, tudo se misturava numa sensação agradável que a fazia querer ficar um pouco mais só para conhecer quem estava no café, quem trabalhava ali, no final de contas, quem gostava de lá ir. Esperava algo diferente das pessoas, ou melhor, esperava algo, pois aquele ambiente despertava algo natural, não mecanizado (como era tanto frequente).


"Ela foi embora, eu sei."


Continuava ele,


"Era a minha mulher. Era. Divorciamo-nos há pouco tempo, nem sei como tudo se passou. Sinto-me confuso agora. Eu sei que parecíamos mesmo chateados, mas já fomos felizes, mesmo felizes. Mas não a maço mais. Até um dia, no aperto da rua, ou lá no prédio quando fizer demasiado barulho, ou mesmo quando cair. Irei lembrar-me de si, não se preocupe."


"Espere!"


Uma ideia um pouco maluca e imprudente rasgou-lhe a mente. E se conhecesse aquele homem, e se ele lhe contasse a sua história, se fosse realmente verdade, que ele um dia tinha sido Feliz. E se? Eram demasiadas suposições, mas aquele ambiente, o seu estado de espírito disse-lhe que deveria arriscar. Porque não?


Ele, que já se confundia entre as poltronas de veludo coloridas, que parecia meio esfumado entre os vapores da canela e a densidade das conversas dos frequentadores do café. Ah, o café, deveria voltar ali mais vezes, deveria dizer a ele para...


"Venha cá mais vezes, não deixe de vir. Pode contar-me a sua história, não me maçará, eu ouvirei as suas histórias no Dia em que foi Feliz. Se não vier será como passar pela rua vendo-me caída e não me dar a mão, em tudo igual à primeira vez, excepto o facto que me conhece, a indiferença conhecida é a que magoa. Venha, num dia qualquer. Num dia."


Pulou da sua cadeira, e afastou-se do Café das Letras. Definitivamente iria voltar ali. Algumas descobertas mereciam tornar-se num hábito rotineiro, numa parte de nós, o que não acontece muitas vezes.


Naquele dia solarengo, em que de facto o tempo coincidia, raro acontecimento num desencontro quase eterno do tempo e do meu tempo, do tempo dela, hoje era apenas um daqueles dias. Hoje é.

 

sinto-me: optimista
música: Save Tonight - Eagle Eye Cherry

04
Set 09
publicado por Andi, às 16:12link do post | comentar

15 de Novembro de 1901

 

 O dia tinha começado havia pouco tempo, apenas uma luz ténue entrava nas janelas embaciadas pelo orvalho matinal da casa de Maria da Conceição e Hildeberto Fonseca. Contudo, já se observava alguma azáfama dentro de casa, a mulher arranjava o pão que havia cozido na sexta passada, migando-o para dentro de uma tigela e entregando-a ao marido, alimento para o confortar para uma manhã de trabalho árduo.

 

Havia apenas uns murmúrios ténues trocados entre o casal àquela hora matinal, os filhos dormiam todos divididos por dois quartos, incluindo a pequenina que dormia no quarto deles, no berço, descansava de uma noite passada em claro, gritada a plenos pulmões, como se lhe espetasse agulhas em todo o corpo, finava-se, debatia-se nos braços da mãe, enquanto esta tentava acalmá-la, mas parecia não ter efeito. Por fim, vencida pelo cansaço, deixou-se dormir envolta nos lençóis brancos bordados pela mãe, uns meses antes da sua vinda atribulada a este mundo.

 

Após a refeição Fonseca disse à mulher:


"Só volto depois à hora do almoço. Vou agora para as vacas, lá para os cerrados acima da ladeira."


"Toma cuidado, não sei se o tempo vai ficar mau."


Respondeu Maria com uma nota de preocupação na voz, tinha aprendido com a mãe os sinais para prever o tempo, conseguia ver os prenúncios no comportamentos dos animais, na posição da lua, em si até, senti-a apenas. Inclusive fazia um calendário em que anotava o tempo que fazia durante o primeiro mês de cada ano, nos primeiros doze dias do mês anotava com um desenho o tempo que fazia, pois não sabia ler nem escrever, apenas conhecia a noção do tempo e dos números, esses dias serviam para arremendar cada mês desse ano, os próximos doze dias desarremendavam, dando uma noção mais precisa do tempo que iria estar. Nada era certo, nada era definitivo, era necessário sensibilidade para distinguir os prenúncios verdadeiros dos falsos. Todas estas condições faziam com que ela fosse extremamente sensível nesse aspecto. Não falava abertamente com ninguém acerca disso, pois iriam considerar maluca, dizer que se sente o tempo que faz, onde já se viu?! Não o escondia também, é certo, tanto que tinha avisado o marido, sentia o capricho do tempo,  o vento começava a sussurrar matreiro, o sol que entrava pela janela virada para nascente parecia de pouca dura.

 

"Lá nada. O tempo vai estar bom hoje. Não te arrelies mulher. Na hora do almoço cá estarei!"


"Nosso Senhor te acompanhe."


Arrematou a mulher a conversa com uma despedida pouco usual.

 

O marido foi à rua, preparou o material necessário e lá foi, pelo caminho íngreme que ligava a casa aos pastos circundantes, estava preocupado com uma vaca que estava na altura de parir e ainda não mostrava quaisquer sinais de parto.

 

Maria observava, ansiosa, o marido a afastar-se. Nada daquilo lhe parecia bem, um nó apertava-lhe a garganta, imobilizava as cordas vocais, angustiava-a! Parecia um dia normal, mas a terra estava à espreita, à espera de algo substancialmente grave e grandioso.

 

Abanou a cabeça, tentando afastar aqueles sentimentos, e foi ao seu quarto, levada pelo choro da pequena Luzia. Pegou-lhe ao colo e supondo que teria fome, puxou a blusa para cima e alimentou-a do seu leite.

 

A bebé fechou os olhos enquanto bebia, e a mãe ficou a olhar para ela, descansando do que seria um dia longo. Tinha o seu corpo endurecido pelo trabalho, talhado para as suas tarefas rotineiras, embora ainda fosse nova, ainda tivesse vinte e sete anos, já tinha uma velhice causada pelo trabalho, pelo vento carregado de sal, pelos filhos, que embora amasse, tinham vindo cedo na sua vida, quando ainda por dentro se sentia uma menina, mas isso eram preocupações supérfluas. Era uma Mulher. Apesar do trabalho ainda mantinha os seus traços de beleza insular que a caracterizavam desde sempre.

 

Levantou-se deixando a bebé no berço, e certificando-se que todos os filhos dormir, pegou num cesto de vime com roupa suja e saiu de casa, andando apenas uns poucos metros na direcção do quintal, na direcção da ribeira, e aí encontrou as suas vizinhas.

 

"Ora bons dias, Lucinda e Guadalupe.  Como estão os pequenos?"


Maria referia-se aos filhos que as suas vizinhas tinham e que ainda eram relativamente pequenos, como os seus! Lucinda, uma mulher bonacheirona, com rosto redondo, cabelos castanhos, e mãos rechonchudas era uma mãe modelo, e mesmo o parecia, era de uma calma inusitada, mas quando se tratava dos seus rebentos, podia transformar-se radicalmente.

Já Guadalupe tinha sempre um feitio mais explosivo, era muito energética e prática, mas também muito orgulhosa do que fazia como parteira, dos seus haveres, dos seus filhos e do seu corpo, embora todas elas fossem bonitas à sua maneira, a beleza de Guadalupe era uma beleza vistosa que atraía os homens famintos, que os cegava de luxúria, e esse aspecto já havia sido seio de muitas desavenças na freguesia no passado.

À laia de resposta à pergunta feita pela vizinha ambas as mulheres acenaram com a cabeça, entre uma escovadela e passar a roupa por água.


Quando é o baptizado da tua pequena?” perguntou a mais velha, Guadalupe.


Ainda bem que me falas nisso, vai ser no Domingo, daqui a três dias. Queria convidar ambas a aparecerem na missa. Deram-me uma grande ajuda, a missa não seria o mesmo sem vocês!


Descansa que vamos aparecer Maria. É na hora do costume?

Maria anuiu com a cabeça.


Era costume baptizar as crianças poucos dias depois de estas nascerem, Maria não queria que a sua pequenina não fosse consagrada aos olhos de Deus como sua filha, aliás, era também uma precaução contra as tentações futuras e os poderes malignos. Fazia dezassete dias no dia do seu baptismo a pequena Luzia, era mais do que tempo de se consagrar. Já tinha o vestido de linho branco preparado para o dia especial, e ideias acerca do que seria o almoço nesse dia de festa começavam a aparecer na cabeça de Maria. Seria necessário levantar-se mais cedo do que o costume, tirar alguma carne da salgadeira, matar uma galinha velha, fazer umas sopas de carne, e por fim fazer papas, para agradar aos seus outros petizes. Iria pedir também que a sua mãe e tias, e igualmente primas, se juntassem à família naquele dia.


Absorta nesses pensamentos, nem deu conta que já tinha acabado de lavar a roupa toda, e era necessária pendurá-la. Tal como ela, as vizinhas já tinham terminado a sua tarefa, e cada uma iria dirigir-se a sua casa para continuar as tarefas domésticas. Despediram-se alegremente e partiram.


Com o cesto de lado, Maria continuou o caminho naquele pequeno carreiro de terra batida que a levava a casa, ao quintal onde tinha uma pequena corda, onde estendia a roupa. Acto contínuo, ao executar tal tarefa, e enquanto a fragrância do sabão azul se propagava no ar, reparou que as roupas começavam a balançar num ritmo cada vez mais veloz, não tardaria que levantassem voo e fossem parara um lugar longínquo, ultrapassassem a barreira insular e se transportassem para um Mundo Novo, um Mundo de novidade e de mistério. Recolheu a roupa sem mais delongas e colocou-a novamente no cesto, para poder estendê-la numa altura mais propícia. Preocupada, regressou a casa, e encontrou o filho mais velho acordado, com os seus olhos grandes, que o caracterizavam, a olhar alheado pela janela, observando as faias na sua dança frenética movidas pela melodia do vento.


Anda Manuel, vem comer.” Disse a sua mãe, tentando ignorar os presságios.


O rapaz obedeceu, como era seu costume, e a ele seguiram-se os seus irmãos naquele ritual matinal de sequência, acordava um, e os outros acordavam com o barulho, começava a comer e os outros seguiam-se. A mãe via-se numa espiral de actividades, acode aqui, corre ali, serve a comida ao mais novo, manda o mais velho ajudar os mais pequenos, de modo a que todos estivessem prontos na altura devida. Por momentos Maria gostava de ver, embevecida, os seus filhos naquela altura da manhã, quando acordavam de um sono inocente, e ainda não havia brigas e disputas entre eles, como acontece como todos os irmãos, quando ainda não havia problemas domésticos para resolver, e tudo se reduzia a uma questão de azáfama para alimentar todos.


Como ainda era bastante cedo, e visto que Hildeberto ainda estava nos cerrados, mandou as crianças brincarem, perto de casa, é certo, mas permitiu dar-lhes aquele tempo de descontracção antes dos mais velhos executarem pequenas tarefas que lhes eram incumbidas pelo pai, para os rapazes, e pela mãe, pelas raparigas.

Foi com alegria que os pequenos ouviram tal permissão e com igual satisfação correram de casa a correr descalços para darem largas à sua imaginação, descobrindo cantos perdidos nos terrenos circundantes da sua casa, e mesmo terrenos mais afastados, sem a mãe saber, obviamente.


Maria permitiu-se também um tempo de descanso daquelas lidas matinais. Pegou na cadeira de madeira tosca que havia no seu quarto de casa, que havia sido feito pelo seu pai para o seu casamento, bem como o resto da mobília da casa, e que ainda conservava, e esperava conservar enquanto vivesse, conservando igualmente a memória do pai que já havia morrido, que Deus lhe dê descanso. O pai que sempre a ensinara a fazer as tarefas que lhe eram confiadas com a maior perfeição e orgulho, mesmo que lhe fosse custoso fazê-lo, um homem de uma ética surpreendente, contudo de uma teimosia inabalável, inquebrável e que lhe provocou alguns atritos com a filha, mas que acabaram por acabar com a cedência da filha. Ajudou-a a ser tolerante e perseverante. Muito devia ao seu pai.


Também hás-de aprender muito com o teu pai, Luzinha.” Murmurava Maria, enquanto se balançava na cadeira de recordações.

 

Ficou algum tempo observando-a e falando com a pequena baixinho para que não a acordasse, falando-lhe no avô que não conheceria, pelo menos fisicamente, pois Maria da Conceição queria ter a certeza que a sua neta conhecesse o génio do avô, pelas suas memórias, pelos seus feitos que tinham deixado uma marca indelével na família.

 

Acordou sobressaltada com os seus filhos a correrem pela casa adentro, dizendo que tinham fome, e que estava chovendo na rua.

Constatou que assim era, olhando pela janela, não conseguia observar mais do que grossas cordas de água que vinham furiosamente castigar o chão, deixando tudo em lameiro, provocando a ribeira, que se exaltava e que ameaçava saltar do seu lugar.

Já passava da hora do almoço, havia há muito, pois os seus filhos nunca teriam vindo para casa à hora do almoço para comer, era um costume já ter que gritar várias vezes com eles para deixarem a brincadeira e vir comer. Recriminou-se por ter adormecido estupidamente, e ter baixado a guarda nas suas funções! Lembrou-se do marido, e virou-se para Manuel:


Onde está o teu pai? Já voltou a casa?” o tom de preocupação na voz traía a sua aparente calma.


A resposta dada por aqueles grandes olhos esverdeados foi negativa.

 


Um Sopro de vento...#1 e 2


Ps. Não esqueci que o blog fez dois anos! Parabéns a quem ainda me acompanha.

sinto-me: stressed out
música: Where the Streets Have no Name -U2

22
Mai 09
publicado por Andi, às 21:38link do post | comentar | ver comentários (2)

O dia parecia normal, prazeroso até se admirassem o tempo quente e o céu limpo. Parecia igual a todos os outros, contudo sabia que não seria assim, tinha algo marcado nesse dia, um duelo que teria de travar contra a própria Natureza, e aquele que se dizia o seu Mestre, o seu Restaurador. O tempo seria contado até a essa hora fatídica, e sabia que seria memorável, mas não tinha ainda bem a noção do que aconteceria.

Apreciou a sua última refeição num café de esquina, mastigando-a sofregamente e contemplando o mundo inocentemente, pois depois de tudo estar terminado sabia que se o veria outra vez, seria de uma perspectiva negativista.Confiante de si, na sua vitória encaminhou-se para o local marcado, e quando o relógio bateu as seis horas tocou à porta, onde a assistente do seu oponente o recebeu com um sorriso. Limitou-se a um breve esboçar de simpatia, não iria demonstrar já fraqueza numa altura tão precoce.

"Pode entrar" disse afectadamente a assistente.

O coração batia descompassadamente numa arritmia ridícula e os seus músculos retesaram-se de algum nervosismo.


Ali estava ele o seu oponente, que o convidou a tomar o seu lugar, numa atitude também simpática. Não passa de disfarce, foi esse o seu pensamento, enquanto tomava o seu lugar. Mal se sentou o seu oponente começou a relatar o assunto que o levava ali. Ia protestar quando ele o atingiu, de uma forma tão impetuosa que o deixou sem poder falar. O seu queixo estava dormente, o lábio inchado e a sangrar, e não se conseguia levantar. Tinha sido preso, sem qualquer tentativa de se defender, que batalha tão inglória a que teria de combater! Uma luz foi-lhe direccionada aos olhos, nada conseguia enxergar inicialmente, contudo após um momento conseguiu distinguir duas silhuetas dobradas sobre si, eram a assistente e o seu Mestre! O Mestre continuava implacável, cada vez sentia menos a boca e num instante virou-se e pegou no seu instrumento de tortura utilizando sem qualquer ressentimento. O ar ficou saturado de um cheiro a cabelo queimado, se bem que não era cabelo que ele queimava! Enquanto isso ia sempre falando-lhe, numa voz enganadoramente melodiosa.


Os instrumentos passavam da mão da assistente para a do Mestre, depois na sua direcção numa velocidade incrível, fechou os olhos enquanto o massacre continuava. O tempo parecia não avançar, o Mestre trocava de técnica sempre que não encontrava o que pretendia...


Num dado momento, sentiu-se encolerizado subitamente com toda a situação, libertou-se das mãos da assistente e do Mestre e aplicou-lhes a mesma substância inicial com a qual tinha sido injectado, e aplicou-lhes uma grande quantidade. Caíram os dois redondos no chão. Aproximou-se do Mestre e deu-lhe uns quantos pontapés, recusava-se a usar os seus instrumentos perniciosos.


Exibiu um sorriso de satisfação, embora este estivesse transfigurado pelo sangue e pelo lábio tumescente. Não perdeu um segundo, agarrou no dente que o dentista tinha retirado e correu desvariado pelo corredor do consultório fora. Haveria de arranjar uma forma de o colocar lá!!







E isto meus amigos, é um "conto" muito estranho acerca d"O Massacre no Dentista"!

sinto-me: com dores de dentes!
música: Africa - Toto

08
Mai 09
publicado por Andi, às 21:05link do post | comentar

A música toca, incessantemente. Aparente os senhores que trabalham na rádio não têm descanso, trabalham exaustiva e infinitamente. Isso fê-la estremecer. Trabalhar eternamente, não ter folga, não poder descansar, não poder estragar o alarme e deitar-se um pouco a ouvir música. Apenas a aproveitar o momento instantâneo.

 

Decidiu levantar-se. Estava farta de estar em casa, tudo estava igual como sempre, queria ver algo novo, algo que não dela, algo que ela não reconhecesse, algo que não ela. Passeou pelo quarto desarrumado, as suas roupas encontravam-se espalhadas um pouco por todo o sítio, por cima da cama, no chão, na secretária, os papéis sobre a sua investigação também, mas não fazia mal, orientava-se bem assim. Havia fotografias dela com a sua família e alguns dos poucos amigos chegados espalhadas aleatoriamente pelo quarto, assim como papeis, autocolantes, e lembretes de toda a espécie colados aqui e ali, rabiscados, pelo chão, debaixo da cama, enfim... Uma confusão onde ela se organizava, já tinha tentado organizar o quarto, mas, curiosamente, não encontrava nada daquela forma.



Decidiu então sair. O dia estava solarengo, embora algumas nuvens preguiçosas teimassem em não sair de perto do sol, o dia não poderia ser perfeito, pensou ela, teria de se habituar! A rua agitada não a deixava decidir que rumo tomar, então deixou-se guiar pelo fluxo constante das pessoas. Deu por si à frente de um café que lhe pareceu simpático, com um letreiro grande por cima da porta antiquada que em letras douradas e gordas dizia "Café das Letras", deu uma espreitadela pelas vitrinas de vidro e notou que tinha algumas pessoas, mas ainda havia espaços vazios, notou também que havia uma espécie de pequeno palco ao fundo do café, rodeado por poltronas e cadeiras de veludo de várias cores. Lá entrou no café, sem objectivo concreto, cheirava a café e canela, e sentou-se numa poltrona após um sorriso rápido ao empregado que estava no balcão.


Observou os frequentadores de café. Mas algo prendeu-lhe a atenção. Um casal que discutia acesamente, contudo sempre em voz baixa, a sua discussão era visível nos gestos exageradamente óbvios dela, e na inexpressividade dele. O seu interesse surgiu, qual seria o motivo da discussão, quem achava que teria razão, eram eles amantes? Contudo, tal interesse deveria ter sido disfarçado, pois após uns minutos o homem levantou-se, dirigiu-se à sua mesa e sentou-se à sua frente.

 

 

 

Genuidade#2

Genuidade

sinto-me: bahhh
música: Canção do Engate, António Variações

19
Mar 09
publicado por Andi, às 13:56link do post | comentar | ver comentários (4)

Passsava calmamente no corredor da faculdade. As suas pernas deslizavam uma após outra, ok, raio de escrita, enfim, apenas quero fazer sobressair que ele andava calmamente, mas não se assustem ele só tem duas pernas. Continuando, passava no corredor da escola um tanto ou quanto cheio, cotoveladas, pontapés, acidentais, esperava ele, e calor humano. Demasiado calor humano, demasiada intimidade estar a sentir o calor de alguém que não se conhece, pior que não se reconhece como semelhante, não tinha outro remédio senão respirar os outros, passar entre os outros, ter de conviver, não conviver, conviver não, não é esta a palavra, apenas estar ao pé dos outros, ter de falar com eles quando as situações a isso obrigavam... Enfim, os Outros.


Estes pensamentos perpassavam-lhe a mente, ou a minha, enquanto ele passava, sim, ele continua a passar. Interessante como na escrita podemos definir um momento simples e fugaz como quase persistente, eterno, ah! éfemeras ilusões!.


Iria ter outra aula, desta vez numa sala mais pequena, mas ainda teria um intervalo de meia hora, e já no bar da escola, perguntava-se onde iria ficar durante este tempo todo. Não queria ficar ali, obviamente, nem iria esperar à porta da sala. A solução pareceu-lhe ir até à rua e vaguear nas ruas estreitas e sujas daquela cidade minúscula, mas surpreendentemente sobrepovoada e arrogante, onde os seus sítios preferidos eram os mais escuros, sujos e húmidos. Sim não deixava de ser um réptil humanizado, repelente e nojento para algumas pessoas, assustador para outras, isto para aquelas que o consideravam um réptil digno de tais sentimentos, na maioria das vezes era simplesmente um ponto negro na selva amazónica da cidade e da escola.

 

Ok, se calhar estava a exagerar, mas que importava isso, era assim que era a sua situação naquele momento, melhor era como ele a via, a projectava, como se ele fosse um expectador alheio a todo um filme estúpido cujo orçamento não passasse algumas centenas de euros. Assim sendo, continuou a passar naquelas ruas sujas e lamacentas até que se encontrou numa extremidade da cidade. Nunca antes lá havia estado. Eram três da tarde, provavelmente, e o sol batia-lhe  nos olhos, o cabrão, queria ver o que lá havia, a sua curiosidade era das suas melhores características, pensava ele. Um ermo ali plantado generosamente na periferia da pequena urbe, tinha algumas plantas infestantes como seria de esperar, mas mais não conseguia visualizar, a sua miopia nem sempre era uma benção... Tirou a mochila das costas para tirar os óculos da sua algibeira.

 

 

 

 

 

 

*

 

 

Estava cheio de lama. E ainda sem os óculos. Não tinha mala, nem carteira, nem nada. E estava de novo à porta da escola, pela posição do sol diria que eram quase sete, ok sabia lá que horas eram, mas gostaria de poder sabê-las ao olhar para o sol. Nem verificou se estava bem ou se estava a ser observado ou o que quer que seja. Apenas sentou-se ali numa soleta de uma porta e limitou-se a ver o anoitecer a chegar.


Alive - Pearl Jam

 

 

Capítulos anteriores:

Miopia

sinto-me: ok isto é treta!
música: Pearl Jam - Alive

18
Dez 08
publicado por Andi, às 23:00link do post | comentar | ver comentários (4)

Abençoada miopia!

 

Estava sentado na parte superior do anfiteatro principal da faculdade, nas fileiras mais afastadas do quadro perto de ardósia, antiquado e preservador dos bons costumes didácticos, assim dizia o reitor da universidade de peito inchado, nos corredores.

 

Estava sentado na parte superior do anfiteatro e nada via. Ainda bem, a sua miopia não o deixava observar claramente o que o professor escrevia no quadro, o que conseguia ver era um emaranhado confuso [emaranhado confuso!] de rabiscos de giz branco, que todos os seus colegas copiavam religiosamente para o caderno, pedaços de sabedoria anciã, dogmática, que constitui um autêntico  testamento obrigatório que todos teriam de fazer, se alguma vez quisessem ser lembrados. Ele, contudo, não passava, não mais.

 

O professor papagueava umas quaisquer leis de um qualquer senhor medieval conhecido, cujo nome não se recorda, e cujo rosto não consegue distinguir de outro qualquer desconhecido também. Teria que saber enunciar essas leias, despejar conhecimentos aos pacotes como se de uma promoção de supermercado se tratasse, conseguir fazer os exercícios na mesma linha (ir)racional com que o professor os resolvia.

 

Trinta minutos para acabar a aula, a quinta numa série de cinco aulas seguidas, apenas intercalada por escassos intervalos, que consistia no tempo decorrido do tráfego de professores, ir e vir, ir e vir, ir e vir...

 

 O tempo arrasta-se, o tempo esquiva-se, contorciona-se, escapasse-nos entre os dedos, contraria-nos, eternamente... Eternamente! Ah, o tempo!! Maldito.

 

Com este arrastar absurdo dos segundos prolongados até um máximo de flexão, sentia uma vontade insana de vomitar, sentia-se mal, todo o seu organismo tendia a rejeitar aquilo tudo, não era natural, era contranatura, anti-evolução! Repudiava esse sistema, essas pessoas, repudiava-os, mas também não conseguia deixar de sentir uma espécie de repulsa por si mesmo por pertencer a esse sistema, por ter que conviver, ainda que minimamente com essas pessoas.

 

Os seus óculos estão na caixa simples azul-escura, a qual tem desde os seus dez anos, desde os seus primeiros óculos ridiculamente alongados e grandes, tinham-lhe oferecido aquela caixa com o seu nome gravado, que é tão ordinário que não vale a pena mencioná-lo aqui, seria desperdiçar o tempo de quem irá ler isto... Irónico, não?

 

Os óculos estavam na sua caixa azul-escura, a caixa está na sua mala apinhada de livros, a sua mala está aos seus pés, e ele está... Não, não quer saber onde está!

 

Mas poderia tirar os óculos, colocá-los diante dos seus olhos míopes, curar-se daquela miopia céptica, poderia ver o que estava no quadro, que, por agora pareciam hieróglifos egípcios, mas poderiam tornar-se inteligíveis, poderia observar o conhecimento puro descrito em ardósia, em pormenor... Poderia...

 

Todos se levantam, a aula acaba. Ele agarra na mala e sai do anfiteatro, ainda sem os óculos.

 

Ainda míope.

música: Lisboa não é a Cidade Perfeita - Deolinda

27
Nov 08
publicado por Andi, às 12:33link do post | comentar | ver comentários (3)

O despertador toca ao lado da cama onde ela dorme. Endoidece gritando histericamente, tentando contagiá-la por essa histeria infecciosa, fazendo com que ela se levante e deite, na cama de todos os dias, de forma cíclica, repetitiva, autómata. Levante. Deite. Levante. Deite. Sem cessar, sem conseguir respirar mais do que o necessário, fazendo nada mais que o essencial ditado por não sei quem ou por algo mais profundo e mais transcendental do que uma pessoa banal.

 

Tinha-se deitado muito cansada, mas satisfeita por continuar a sua busca incessante pelo riso, sorriso, genuidade... E acordava por algo que lhe corrompia as entranhas de uma velocidade vertiginosa, como tivesse que fazer e ser tudo tão rápido, tão fugaz, parar não era opção, desobedecer, muito menos. Acordou irritada, deu um murro no despertador, mas ele não se calou, começou a gritar com uma voz progressivamente esganiçada, aflitiva quase, uma voz electrónica, despersonalizada, desumana, impessoal como todas as que ouvia, se é que aquilo era ouvir, aquela mistura de sons (ou seriam alucinações de um cérebro cansado de tudo?) esquizofrénica e autista. O barulho insuportável continuou, teve de se levantar. Teria de ser.

 

Calmamente, levantou-se, não ligando ao cabelo desgrenhado e aos pés descalços no chão gelado, era bom até, sentir algum frio. Contornou a cama e arrancou o despertador do seu sítio, desligando-o, matando-o de uma só vez, sem dor, piedosamente não lhe causou dor, poderia tê-lo torturado como ele fazia-lhe todas as manhãs, mas decidiu não gastar tempo nisso.

 

Agarrou o objecto diabólico e foi pô-lo na despensa, num recanto poeirento, onde nunca o seu eu agarrado às convenções sociais, o seu eu mundano, patético se lembrasse de procurar, se lembrasse de resgatar semelhante tortura.

 

Ligou o rádio muito antigo que tinha em casa, velharias dessas que ninguém tem, e ninguém deve ter, e começou a ouvir uma das músicas que mais gostava, algo que era mesmo música, que a fazia sentir bem, que estimulava as sensações, era isso que ela procurava, numa busca incessante e por vezes, infrutífera.

 

Deitou-se outra vez na cama desfeita, vazia de si, vazia de tudo, não por baixo dos lençóis, mas limitou-se a deixar-se cair e ficar na mesma posição, olhando um tecto insensível durante toda a música.

 

 

música: Can't Stop - RHCP

26
Nov 08
publicado por Andi, às 22:41link do post | comentar

 

Olhou-se ao espelho e sorriu, pelo menos tentou. Não era natural nela, não sabia qual esse sentido perverso que fazia as pessoas de antigamente abrir as suas janelas para as entranhas de forma tão pessoal e profundamente constrangedora, não falava só na boca, mas também nos olhos nos ouvidos, nos gestos que todo o riso ou sorriso genuíno incluíam.

 

Tentou outra vez, com mais força, e mais vontade, e outra… Não conseguiu. Era um mistério, e ninguém queria solucioná-lo, todos queriam ignorá-lo como ignoravam tudo e todos, como ignoravam as ignóbeis atrocidades que se cometiam diariamente, a cada hora, cada segundo, cada estilhaço de vida como se de uma garrafa de vinho tinto, daqueles que custavam meia bagatela, mas que sustentavam o vício a muitos, partida se tratasse… Sim, era redundante. A falta de sentidos provoca a redundância, acabámos sempre por voltar ao ponto de inicio, tal qual moscas atordoadas por uma pancada violenta de um papel de jornal grátis (quero ver as vossas caras de desprezo por estes jornais, em  que se recebe informação sem pagar, contrariando todas as leis do Universo, as leis Divinas, que tudo tem de ser pago, e quanto mais exorbitante o valor, melhor será tudo… [e com tudo ela quer dizer tudo ou nada, a redundância mais uma vez, queridos leitores]), jornal esse que já andou em mãos repletas de bactérias, fungos, microrganismos, uma parafernália de seres microscópios, representados sempre nos livros de ciências por cores vivas e brilhantes, como se o mundo em tamanho pequeno, daqueles que se consegue observar totalmente com a objectiva de ampliação 100, fosse assim, fosse mais vivo, mais translúcido, mais brilhante de cores que cobriam todo o espectro da luz; mãos limpas, apenas em termos microscópicos, porque se encontravam repletas de algo imundo, mas incorporável, achava ela que era seriedade, a seriedade mudava as pessoas, faziam-nas insensíveis, indefiníveis, como nada, e ainda haviam as mãos completamente esterilizadas dentro de umas luvas impermeáveis, de uma pessoa também ela impermeável, aliás não era uma pessoa, mas um impermeável por si mesmo…

 

 

A falta de sentidos afectava-a si. [Não pensava sequer em sentimentos, isso não, sentidos apenas, algo que estimule o nosso corpo, algo, alguém, neste tempo ou no outro, neste espaço tridimensional ou no irreal, apenas algo] Tinha estudado grandes poetas que sentiam essa necessidade de mais sentidos, de sentir tudo e todos ao mesmo tempo, ou apenas, de aspirar aromas indeléveis e poder contemplá-los no vazio de um horizonte verde numa hora morta da tarde, quando o sol se esforça pela última vez para aquecer algo que não pode ser aquecido, nem por convecção nem condução. Isso não existia, invenções, como tudo o resto. Irónico como tudo o que buscava ou aspirava era considerado irreal, e tudo o que lhe apresentavam como real ela recusava. Irónico.

Irónico. Será que a ironia também a podia fazer sorrir? Ou poderia também experimentar alguma droga existente no interminável mercado?! Eram tudo opções a considerar, iria continuar a sua busca, baseada na curiosidade. Outro factor desconhecido. Aliás só o conhecido importa saber, supostamente.

 

 

O peso de todo aquele pensamento, a eterna batalha entre o que nos dizem e achámos que devemos fazer pesava-lhe sobre os dedos, e parou de escrever.

 

 

 

 

[O texto poderia acabar aqui, mas ela não sou eu, não quero ser assim tão narcisista que tudo o que escreva seja como eu a escrever, simplesmente não quero. Contudo isto não quer dizer que não acontece. Doces ironias, Batalhas campais e pesos gravitacionais de grande valor… Pesam não só sobre ela, não é assim tão diferente.

 

 

Parou de escrever e deitou-se. O trabalho acumulava-se na secretária, e por trás da pilha de papéis amarelados conseguiu ver os escritos que tinha feito sobre o sorriso, o riso, a genuidade, palavras inexistentes para o mundo, mas não para ela. Tenho de comprar uma máquina de cortar papel [pensou ela]. Amanhã faço isso.]

sinto-me: estranha
música: none

03
Nov 08
publicado por Andi, às 13:34link do post | comentar | ver comentários (2)

 

A música arranca. Os músicos estão compostos em forma de U, e apresentam-se bem vestidos, arranjados para a ocasião, vestiram a sua melhor roupa, barbearam-se, usaram da colónia antiga que guardam no fundo do guarda-roupa para situações especiais. O nervosismo é palpável, se acontecer algum erro, a música ficará logo diferente, e eles não queriam isso, deveria ser como eles tinham tão arduamente ensaiado. A sala está em êxtase, sorrisos palpitam nos rostos sorridentes dos convidados, os olhares atentos fixam-se na banda, e os ouvidos, preparam-se para ouvir a música tão desejada, até há os que até já dizem ouvir música, mas nada mais é que invenções mirabolantes da imaginação, uma fuga imperceptível dos sentidos, uma libertação da realidade oprimida, e que os fazem sentir felizes. O baterista arranca da bateria dois sons suaves, sinal para todos tocarem em simultâneo. Então todos se misturam, numa mescla auditiva, o trompete, o saxofone, o contrabaixo, o piano, a bateria… Os convidados aprovam a melodia melíflua e inocente que vai preenchendo a sala decorada com muitas flores, amarelas, brancas, azuis e violetas, existem também quadros representativos de situações que ilustravam a luta contra a segregação racial, que são contemplados longamente, um por um, por todos os que estão presentes. Ao fundo da sala existe uma mesa com alguns petiscos, para saciar a fome ocasional de algum, e claro existem também as bebidas.
 
A banda está a sair-se bem, agora partilham dos sorrisos inocentes que os espectadores exibiam antes de começarem. A primeira música chega ao fim. Aplausos. Agradecimentos. Recomeçam a tocar, desta vez com mais vigor, ritmo, afinco e energia. Conseguem entre um ou outro lampejo de lucidez, entre a vibração hipnótica da música, vislumbrar os convidados a juntar-se em pares, os homens a agarrarem firmemente as mulheres, com uma mão pelas costas seminuas, devido aos decotes dos vestidos, na zona da cintura, e outra a agarrar a mão fina e longa da mulher, aproximam-se e dançam energeticamente ao som da melodia ritmada. Tocam freneticamente, os dedos voam por cima dos instrumentos, magoa um pouco tocar assim com tanta velocidade e precisão, no contrabaixo, mas o tocador não se queixa, fecha os olhos em vez disso. Os que tocam instrumentos de sopro, aguentam o fôlego um pouco mais do que nos ensaios e fazem demorar a música, como se nunca quisessem que acabasse.
 
Uma hora. Um intervalo. Outra hora. Chega assim o fim do serão. Já são onze horas, são horas de voltar a casa, amanhã todos têm que trabalhar, o tempo não perdoa. Vão todos ver-se amanhã, mas hoje não são eles, têm liberdade, têm expressão. O vocalista, com a sua voz envolvente, anuncia, então, o fim do serão, da actuação da banda. Os pares dispersos aleatoriamente pela sala acolhedora separam-se repentinamente, e instala-se um silêncio, ouve-se cada respiração ofegante, o latejar dos corações no mesmo ritmo… Até que alguém grita que quer mais, e mais, e que o amanhã não importa, não fará diferença mais uma hora. Vozes juntam-se, solicitadoras, por mais. Pedem e pedem, repetidamente.
Os músicos entreolham-se, e sem nada dizer, retiram novamente os instrumentos, que já haviam guardado e voltam à sua disposição inicial. Não têm mais músicas diferentes para tocar. As pessoas ainda continuam a pedir. O saxofonista começa a tocar algo, algo, algo… Que tocava ele? Não sabia. Não pensou, apenas deixou fluir aquela dormência que lhe aquecia os braços e os faziam movimentar, a música emanava naturalmente do saxofone, como se estivesse sempre lá à espera de um momento oportuno para ser revelada. Os outros músicos imitam-no, e os pares voltam-se a unir. Dançaram assim, até ser de manhã, até o suor lhes colar a roupa ao corpo, até terem de se descalçar, até faltar comida e bebida. Mas nunca faltou cadências instantâneas nessa noite. A sua felicidade era, ela própria, uma cadência instantânea.
sinto-me: fine
música: What i'd say - Ray Charles

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