Does it make any sense?! No? So, welcome.
21
Jan 09
publicado por Andi, às 17:02link do post | comentar | ver comentários (5)

Eu não sou de seguir política,aliás, não acredito em política, eu não entro em discussões acesas acerca deste ou daquele pacóvio engravatado, ou tentando descobrir qual deles é o mais corrupto.

 

Eu acredito em valores, não religiosos, isso é particular de cada um, eu acredito em valores humanos. Nos direitos humanos. E admiro profundamente quem os defende desalmadamente, com convicção e persuasão.

 

Pelos sonhos, não apenas americanos, mas mundiais! Pela sua realização. Because we all have a dream!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Só para demonstrar o meu apoio ao Senhor Obama, que ele concretize aquilo a que se propôs.

sinto-me: revolucionária
música: The speech of Martin Luther King Jr.

11
Dez 08
publicado por Andi, às 11:51link do post | comentar

Eu sei que hoje já é dia 11, mas também como sou atrasada em quase tudo aqui fica um vídeo para comemorar, digamos assim, os sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

 

 


14
Mar 08
publicado por Andi, às 21:38link do post | comentar | ver comentários (9)

 Os seus olhos abriram lentamente, vislumbrando, primeiro uma névoa, e depois a imagem nublada foi clarificando e tornou-se nítida. Tinha acordado. Encontrava-se confusa e esquisita. Não sabia onde estava, o que tinha acontecido nos últimos, momentos? Horas? Dias? Não sabia. Não tinha qualquer noção na sua mente, a não ser a da sua existência num mundo estranho e inócuo. E ainda assim, não sabia se estaria numa espécie de sonho estranhamente lúcido e real... Pois não tinha memória de alguma vez ter estado naquele local...

 

Memória! Conceito meramente inventado pelo Homem para não cair nas garras do desespero, para poder almejar, pelo menos, o controlo do incontrolável, a sensação de segurança de quem mantém o que é necessário, e exclui o que não é da sua mente. Vã segurança! Comparou aquela segurança àquela que tinham as pessoas falsamente crentes, agarradas à salvação que pensavam conseguir seguindo as regras de moral ditadas por alguém mesquinho, que Fantasia não sabia quem era... Laivos de imagens da procissão da aldeia a passar surgiu-lhe. As crianças pequenas e inocentes, vestidas de um branco imaculado seguiam em fila, com a vela trémula nas mãos, atrás do andor do padroeiro da freguesia que Fantasia não fazia a mínima ideia. Arminda costumava ir descalça, vestida de preto da cabeça aos pés, murmurando uma ladainha impossível de perceber, enquanto ela e os restantes eram obrigados a ir atrás dela... Arminda!!! Já começava a lembrar...

 

As imagens começavam a aparecer na sua cabeça, vindas daquela associação, enquanto ela tentava reconhecer o quarto onde estava. Não, não o conhecia, não estava na Instituição, portanto. Conhecia todos os recantos da Instituição, vivia lá desde que se conhecia. Todos os rostos lhe eram familiares, e no entanto, tão iguais entre si, não falava com ninguém e ninguém falava com ela à excepção de Joana. Joana e a sua recente ida ao mercado, que dia fantástico...

 

O quarto estava pintado de cal, branca como a espuma do mar, e transmitia um aspecto de humildade e limpeza, exceptuando duas pequenas manchas de humidade num canto do quarto. As cortinas e a manta da cama eram ambas azuis escuras, contrastavam com as paredes alvas pontuadas aqui e ali com algum quadro ou fotografia. Ao canto do quarto pequeno e limpo estava uma arca de madeira pesada, tinha um aspecto antigo, e exibia algumas cicatrizes provavelmente feitas por algum miúdo traquinas, Fantasia pensou. Aos seus pés tinha uma manta de retalhos velha, com cores desbotadas, feita de tecidos que restaram de blusas, calças, vestidos feitos à mão por alguém paciente e trabalhador.

 

Sentou-se na cama, que rangeu sob o seu peso, e lentamente levantou-se. Sentia a cabeça pesada, e os joelhos ameaçavam ceder, estava fraca, e, teve noção que estava ferida nos pés e nos joelhos. Respirou profundamente, tentando arranjar forças para sair dali, ou, pelo menos saber onde estava, se estava em segurança, e, ao mesmo tempo, levantou a cabeça, e olhou pela janela, para os campos luxuriantes vestidos de verde vivo, e amarelo, das ervas azedas, e o azul claro do céu, o branco das nuvens, o rosa manchado das hortênsias que haviam no quintal... Maravilhava-a toda aquela pujança colorida que a Natureza exibia, tão complexa, e ao mesmo tempo tão simples, que passava muitas vezes imperceptível aos olhos das pessoas.

 

Estava  imóvel, a olhar pela janela, quando ouviu a porta abrir-se atrás de si, e um torpor apoderou-se do seu corpo, impossibilitando que ela se virasse imediatamente para trás.

 

"Fantasia..."

 

Conhecia aquela voz. Era Pedro! Pedro, que a tinha tentado apanhar quando ela fugira da Instituição, e que a denunciara, juntamente com José! Agora lembrava-se de tudo, tudo se tornava nítido agora... Como estava revoltada com aquela traição de José, que era seu único amigo, e de Pedro também, a quem até já tinha perdoado o roubo do búzio, embora detestasse que mexesse nas suas coisas, alterassem a sua ordem!!

 

A sua única incógnita era saber onde estava, e como sair dali! Não podia entrar em pânico, mas sentiu uma onde de calor percorrer-lhe o corpo e o seu coração batia acelerado , sentia-o como a terra sente os cascos de um cavalo enfurecido que corre.

 

"Fantasia..."

 

Disse ela. A voz saía aparentemente segura, mas conseguia-se descortinar uma ponta de nervosismo e raiva. Já antevia tudo, como se de uma visão premonitória se tratasse, o seu retorno à Instituição, o regozijo evidente no sorriso sarcástico de Arminda, ver de novo aquela besta do Alberto, voltar à prisão dissimulada, ao cativeiro sufocante que era a rotina daquele lugar...

 

Ele avançou alguns passos, e entrou no quarto, em passadas largas. E sentiu, por instantes, os olhos grandes e um pouco brilhantes, de lágrimas talvez - pensou ele, de Fantasia, dela, ela...

 

Ela recuou os mesmos passos, encostando-se à parede alva daquele quarto. Percebendo que podia ser mal interpretado, Pedro decidiu explicar tudo a Fantasia, não a queria assustar, tão pouco magoar.  Voltou a recuar, e sentou o seu corpo alto e esguio no chão esfregado do quarto. Cruzou as pernas, e passou a mão pelos cabelos castanho escuro, afastando-os dos olhos castanhos e doces, que ficaram completamente destapados. 

 

"Eu não estou aqui para te magoar, nem fazer mal."

 

Começou por dizer Pedro, tentando acalmar Fantasia, ainda sentia a sua desconfiança apontada pelo olhar de soslaio permanente e dos lábios sem expressão dela.

 

Fantasia estava, de facto, desconfiada, não confiava em Pedro, sabia que ele a tinha entregue, e que lhe tinha feito algo, para acordar ali, sem saber dos acontecimentos recentes, pelo menos até quando o viu na praia, nem sabia se tinha havido mais alguma coisa após isso... Nem sabia que dia era, também nunca lhe interessava, essa convenção de tempo era inócua para ela, ela dividia o tempo pelo seu ritmo natural, mais lento no Inverno, e mais rápido no Verão, constante e mutável, obstinado e tolerante. Mas decidiu que não poderia fazer nada, por enquanto, iria ouvir o que lhe tinha a dizer, e depois resolveria como fazer.

 

"Vou-te contar desde o início, para perceberes. Eu chamo-me Pedro, como já deves saber, não que isso te interesse, mas adiante, e o meu apelido é Ferreira. O José também é Ferreira, ele é meu parente, é meu tio. Conheço-o desde pequeno, e é dos poucos, senão o único, da minha família com quem tenho um bom relacionamento, e até um relacionamento. Fui parar até à Instituição porque os meus pais maltratavam-me, e obrigaram-me a trabalhar desde miúdo, e portanto, deixaram-me a cargo de um funcionário governamental, o Alberto, e o resto tu sabes."

 

Aclarou a voz. Não sabia bem o que ganhava ao contar-lhe tudo, se calhar nem iria alterar nada, mas não conseguia mais guardar aquilo tudo para si. Portanto, olhou para o chão, para não ter que enfrentar o olhar inquiridor de Fantasia, e prosseguiu.

 

"O meu objectivo nunca te foi chatear, na noite em que chegaste, reparei em ti, quando passaste pelo corredor, parecias chateada, e a única não interessada em prender a minha atenção. Todos pensavam que era filho de Alberto, embora ele me tratasse como tal, não de uma maneira afectuoso, mas com rigidez, com um orgulho prepotente de ter um rapaz forte e ajuizado , embora eu ache que não seja nenhuma das coisas"

Ri-se.

 

"Enfim, apenas quis-te conhecer um pouco melhor, já que a Instituição seria o meu lar... Portanto fui até ao teu quarto, no dia seguinte, mas ainda estavas a dormir, parecias estar a dormir tão descansada, que não te quis acordar, ia-me embora, mas foi aí que vi as tuas coisas... Os teus quadros... Os teus pequenos objectos, que na altura pensei que recolhesses por ter algum significado, incluindo o búzio. Retirei-o, pensando que não te importavas, já que eu te ia devolver, não queria ficar com ele, queria encontrar um semelhante para te oferecer..."

 

Nesta parte, Pedro corou um pouco, não estava habituado a dizer aquelas coisas, ainda por cima a raparigas, era estranho, contudo não parou.

 

"E foi então que decidi ir falar com o meu tio, que, como sabes, é um homem do mar, conhece-o e a alguns dos seus mistérios. E, fui-lhe perguntar onde ele saberia encontrar um búzio parecido. Ele respondeu-me que te conhecia e que tinha sido mesmo ele a entregar aquele búzio, e também acrescentou que não te deveria ter tirado, aí já me apercebi que poderias ficar realmente chateada, portanto dei-lho e fui procurar um, e quando me encontraste, era precisamente o que estava a fazer.  Claro que depois de cair à agua, não procurei mais búzio nenhum..."

 

Será que ele está mesmo a dizer a verdade? Pensava Fantasia, enquanto Pedro continuava a sua extensa exposição dos factos...

 

"Sinto-me culpado pelo raspanete que levaste da Arminda e do Alberto, e por teres sido castigada por mim, ainda tentei convencer Alberto a não te dar nenhum castigo, mas o máximo que consegui foi ele não te dar um castigo que envolvesse fome ou violência, porque... ninguém merece isso..."

 

Pedro parou, repentinamente, de falar e instalou-se um silêncio um pouco incómodo em que o barulho da respiração e de algum movimento involuntário faziam-se ouvir perfeitamente. Não era momento para parar a conversa, portanto, aclarou a voz e prosseguiu.

 

"Os dias seguintes mantive-me afastado de ti, para te afastar de problemas, embora a tua presença sempre me causasse curiosidade, queria, e quero saber mais de ti... Eu sei que pareço completamente irracional e demente, mas não consigo deixar de dizer a verdade! Bem, continuando, as coisas permaneceram mais ou menos calmas até há uma semana atrás... Quando o Alberto tentou fazer-te mal, ele até não é má pessoa, mas não sei porquê detesta que lhe façam frente, ainda por cima mulheres."

Pedro reparou na careta de desagrado que Fantasia fez... Compreendia que ela odiasse Alberto, mas tinha aprendido a não ver tudo a preto e branco, aliás, a maior parte das coisas que interpretava eram cinzentas. Afinal de contas, Alberto tinha-o ajudado quando mais precisou, e estava-lhe muito grato por isso.

 

"Quando ouvi os gritos naquela manhã, e fui à cozinha e vi toda aquela situação, o sangue, Alberto gesticulando que nem um doido, e a espumar de raiva, percebi que algo mau se passara, e como não te via, fui-te procurar. Depois vi-te a fugir da Instituição e percebi que não regressarias, não queria que fosses sozinha, portanto fui atrás de ti... Mas perdi-te. Portanto, regressei à Instituição e fui buscar as tuas coisas, e alguma comida e água, com a ajuda de Filipa que disse que também te queria ajudar, embora não tivesse a coragem para fugir dali, e saí também, não me ia adaptar de qualquer forma, e nunca cheguei a conhecer-te. Pensei que irias pedir ajuda ao meu tio como era com ele que falavas, portanto telefonei-lhe antes de sair, e dirigi-me à sua casa, onde estamos agora. E vi-te. Fiquei contente por estares bem, pelo menos, relativamente bem. E foi aí, que desmaiaste. Ficaste muito fraca com o sangue que perdeste, e a tua fuga pela mata não ajudou muito. Portanto, desde há cinco dias tens ficado aqui a repousar. Tiveste febre muito alta, e passavas metade do dia a dormir, é perfeitamente normal que não te recordes, por enquanto... Mas basta de conversa fiada, já falei demais, só quero saber agora se aceitas a minha ajuda e companhia. Basta fazeres sinal com a cabeça."

Sabia que ela poderia considerá-lo um doido varrido, um psicopata qualquer, e que muito provavelmente não aceitaria a sua ajuda, mas tinha que tentar, nunca saberia se nunca o fizesse.

 

Fantasia estava perplexa, estava confusa com aquilo tudo, no entanto a expressão de Pedro parecia sincera.  Tinha aprendido a não confiar em ninguém a não ser em si própria, e mesmo assim errava demasiadas vezes. Iria aceitar, e acreditar em Pedro, que parecia verdadeiramente preocupado com ela. Acenou afirmativamente, para felicidade de Pedro que logo lhe mostrou um sorriso rasgado e genuíno.

 

"Obrigado Fantasia. Anda, segue-me. Deves ter fome!"

Levantou-se de rompante, abriu a porta e saiu. Fantasia seguiu-o, e foi apreendendo pequenos pormenores da casa, os tapetes rudes, pequenas flores em vasos, no estrado, junto da janela, algumas peças de renda que pendiam de um móvel tosco...

 

Havia um cheiro no ar, era... peixe! E começava a ficar com fome, já comia qualquer coisa, e aquele cheiro abria-lhe um apetite voraz. Chegados à cozinha, Fantasia encontrou um homem, que identificou como José, e uma mulher, com pele grossa curtida do trabalho, certamente, mas com um ar doce e maternal, que supôs ser mulher do pescador, como ele o confirmou a seguir, apresentando-a como Clarisse .

 

O casal mostrou-se extremamente simpático e as desconfianças de Fantasia, bem como o seu normal isolamento caíram por terra, e tornou-se afável. Já não se recordava de ser mimada assim há muito tempo. Jantaram na cozinha, numa mesa apertada, mas acolhedora, e comeram com fartura, embora Fantasia suspeitasse que eles geralmente não comiam assim. Comeu tanto e tão à vontade que até Clarisse , lhe arranjou um pouco de pão de milho e peixe para a viagem. Fantasia interrogou-se de que estaria ela a falar, mas continuou a comer.

 

Depois de comer, reuniram-se na pequena sala, que era contígua à cozinha e conversaram, sobre coisas banais, mas que pareceu a Fantasia uma conversa importantíssima , se bem que ela não participou muito na conversa, a sua capacidade comunicativa nunca fora das melhores, e até agora nunca lhe tinha feito falta, mas agora sentia-se um pouco irritada por não conseguir fazer perceber-se, ainda que gesticulando e falando atabalhoadamente, percebia-se.

 

A conversa assim decorreu, até que veio à baila a fuga de Fantasia e de Pedro. José, então informou os dois que tinha ouvido comentários dos pescadores acerca da responsável da  Instituição, oriunda da aldeia, e solteira desde sempre, que ela tinha acusado um funcionário governamental de assédio, pelas próprias palavras dos pescadores amodes ca sinhora era quas'uma sposa pa ele, tava sempre a fazer-le o qu'ele qria , e ele tinha uma mulher e inté uns puquenos , uma pouica vergonha...". Pelo que José conseguiu saber, Arminda fora despedida, e Alberto tinha tido graves problemas com a mulher, mas lá permaneceu casado, e perdeu estatuto e prestígio no emprego, embora não o tenha perdido. Mas o mais relevante para os dois fugitivos, era que o Director da Instituição já tinha ordenado que o procurassem, não com muito alarido, pois queria manter a máxima discrição, e não queria alarmar a população.

 

"Como eu já previa desde o início, não podem ficar aqui!"

 

Afirmou peremptoriamente José. Clarisse concordou, abanando a cabeça. Pedro olhou para o chão, não vendo outra solução. Fantasia... Levantou-se e disse que não! Embora detestasse a Instituição e tudo o que ela representava gostava daquela terra, tinha-se habituado a ela, ao mar, não queria deixar as coisas que conhecia e de que gostava... Gostava da sua rotina, da familiaridade das coisas.

 

Não houve outra opção senão partir, era partir ou ser apanhado, e perante esta situação Fantasia concordou em ir, mas perguntava-se para onde, não conhecia mais nada para além daquela pequena vila, desconhecia o tamanho do mundo, a sua aleatoriedade, a sua multiplicidade, semelhanças e diferenças, mas já tinha mudado tanto para conseguir aquela libertação que ansiava desde sempre, a libertação daquele peso que carregava e que não o sabia definir nem limitar...

 

*

 

O mar não estava calmo, nem estava tempestivo, estava... Ansioso, expectante pelo que haveria de vir. Ela também. Lambia-lhe os pés desta vez não descalços, mas sim, dentro de umas sandálias confortáveis que José lhe arranjara. Entrou para dentro, levando consigo algumas roupas que Pedro trouxera da Instituição, juntamente com alguns dos seus desenhos e materiais de pintura e ainda o farnel que Clarisse tinha gentilmente arranjado. Após ela entrar, entraram também Pedro e José, que pôs o motor do barco a trabalhar e os levou a abandonar o porto, que começava a ficar distante com Clarisse a acenar, composta no seu vestido de cores tristes.

 

Começava a ficar um pouco angustiada, pois o desconhecido assustava-a um pouco, tinha medo de não gostar, tinha medo de não se conseguir libertar, tinha medo que fosse pior, tinha medo... Pedro percebeu essa angústia e aproximou-se dela, sentou-se ao pé dela, e estendeu-lhe a sua mão, um pouco trémula, mas bondosa. Fantasia, com lágrimas que ameaçavam cair, via-o um pouco desfocado. Nunca dera a mão a ninguém, mas tinha medo, e precisava de algum apoio, carinho. Sentia-se completamente parva, desprovida de razão, mas aceitou a mão de Pedro. Ele apertava-a forte. Uma lágrima escorregadia molhou as mãos unidas de ambos. Ele olhou docemente para ela, embora ela não o conseguisse ver, tinha a cabeça baixa.

 

"Fantasia..."

 

Disse Pedro, deslumbrado com o que via.

 

"É uma ilha!"

Aquele pedaço de rocha vulcânica erguia-se agora diante deles, imponente e orgulhoso como Fantasia, verdejante e vivo, como se de uma criança se tratasse, uma criança traquinas que lhes tinha pregado aquela partida. Várias aves sobrevoavam a ilha, e dada a distância a que se encontravam, não conseguiram distinguir onde ficava a vila e a Instituição em que eles tinham vivido toda a vida, mas Fantasia sabia que ela estava algures lá, e que a tinha deixado, finalmente.

 

"É uma ilha, e eu nunca soube...!!"

Ela também nunca soubera. Mas agora sabia-o. E não iria se esquecer disso.

 

 

 


 

 

Este foi o último capítulo de Fantasia, o que não significa que Fantasia pare aqui, estanque. Ela continuará enquanto eu continuar, porque embora não seja eu, existe em mim, e eu nela. É difícil definir até quanto eu retiro aspectos da minha vida e coloco na de Fantasia. Fantasia... apenas! Queria agradecer aos meus amigos que me apoiaram e incitaram a escrever, como o JP e o Hélder (é sim com acento), e ainda à Mel de Vespas, a minha leitora mais assídua.

Por fim, queria dedicar esta história ao Jossy , porque foi a pensar nele que escrevi isto, porque és o meu Pedro, e me dás a mão quando preciso... Enfim, é por ti que sou irracional...

 

sinto-me: Um pco lamechas
música: All at once - Jack Johnson

12
Ago 07
publicado por Andi, às 14:44link do post | comentar | ver comentários (2)

Seriam aproximadamente 7 horas da madrugada, não sabia bem, estava desorientada, não conseguia orientar-se nem situar-se no tempo nem no espaço.

Correu um bom bocado, antes de chegar ao porto onde se encontravam pequenos barcos de pesca, saloios, rústicos, simples e humildes como os seus propietários.

Havia um pescador a preparar-se para partir para a labuta matinal, árdua, mas prazerosa, quando reparou nela, alta, com um ar traquinas e maroto, infantil, mas ao mesmo tempo havia uma réstia de mulher adulta e experenciada que deixava antever que ela era muito mais madura e vivida do que parecia. Pela sua roupa e pelo seu aspecto ensanguentado, o pescador presumiu que ela fosse da Instituição que ficava a alguns quilómetros da praia. Sim, só podia ser.

Fantasia, com os sentidos em sobressalto, tentando ver, ouvir, ou sentir a menor presença de pessoas ou de perigo, apercebeu-se que alguém a mirava com olhar curioso e incrédulo, sentia-se vigiada, mas não num aspecto maldoso ou pernicioso. Era um olhar de interrogação, de curiosidade, de quase compreensão pelo estado em que ela se encontrava. Então, contra tudo o que ela sentia e detestava nas pessoas decidiu aproximar-se do dito pescador, um pouco nervosa e pouco descontraida, mas a fome que sentia era maior, apertava-a, não a deixava pensar claramente, sentia a boca seca, o corpo torpe e fraco.

O pescador de seu nome, José, era um homem simples, de pouca cultura, de poucos estudos, nem sabia escrever o seu nome, mas percebia algo que nem os mais distintos doutorados percebem, uma linguagem escondida no olhar, nos gestos, uma espécie de código secreto que as pessoas têm... Pegou na sua sacola puída pelo tempo e pelo uso e tirou metade do seu almoço, e, imediatamente, estendeu-o no seu barco. Quando Fantasia se aproximou dele, ele não disse nada, apenas fez um gesto para o barco, ela percebeu pelos seus olhos, pelos seu modo de estar e de agir, que ele era uma pessoa inofensiva e pacífica, que apenas pretendia ajudar.

Saltou então para dentro do barco, cuidadosa, mas ainda com vigor, pois apesar de tudo era jovem e forte. Começou a comer ferozmente, tal era a fome que tinha. Quando acabou de comer, já refeita e saciada, e sentindo-se mais segura, é que reparou que o pesacdor não se tinha limitado a dar-lhe de comer, tinha-a levado no seu barco para a pesca também! De súbito, sentiu uma onda de pânico percorrer-lhe o corpo cansado, mas alerta, ficou com calor, e começou a respirar pesadamente. Nunca tinha andado de barco, nem tão pouco estado tão perto de tanto mar! Fechou os olhos e tentou não sentir as ondulações que se esbatiam contra o barco, que pareciam querer tragá-lo só de uma vez. José sentiu o seu medo, e parou de remar para que Fantasia não se assustasse mais, e esperou, esperou que ela tomasse coragem e abrisse os olhos, que reparasse na forma como o mar lhes dava as boas-vindas, este reflectia a luz ainda ténue do sol, e estava calmo...

Agarrou o seu búzio, o seu presente, que apesar de ser de metal, ela considerou ser uma espécie de búzios muito rara e especial, e abriu os olhos, lentamente. Sabia que o mar era seu amigo, mas não deixava de ter medo da sua imensidão, do seu poder e força. O que viu, fê-la esquecer o medo que sentira, a dor, o medo da ser prisioneira, fê-la esquecer que havia Instituição, de que Arminda estaria fula, nada... Não havia nada mais, apenas ela e o mar, e o céu límpido e claro, com o sol a despontar, o mar adquiria uma tonalidade esverdeada e permitia-lhe observar os animais que nele habitavam... Estava maravilhada, nunca pensou que o mar não tivesse fim, e olhou para trás e viu a costa, a praia, as casas, muito distantes, diminutas, insignificantes, sentiu-se dona de si, imponente, ela mesma! Pela primeira vez em algumas semanas falou espontaneamente, e disse apenas "Fantasia!"...

O pescador sorriu levemente de satisfação, já começava a gostar dela, da rapariga misteriosa, que parecia gostar de viver, de apreciar as coisas simples da vida, e decidiu continuar a remar. A rapariga abriu os olhos perante tal espectáculo; luxuriante, inebriante e excitante era aquele sentimento, que não conseguiu definir. Mas não se importou de deifinir, seja o que for, não sentia essa necessidade...O barco, apesar de pequeno, era conduzido velozmente pelas mãos experientes de José. Dividia o mar em dois, cortava as ondas em dois, parecia uma corrida entre o barco e o mar. Pôs a mão na água e sentiu. Sentiu o mar, veloz, fugidio, suave, e inatingível. Gostava daquela sensação, estava de mãos dadas com o mar, e eram amigos. Brincou com ele, acariciou-o e disse-lhe os seus desejos e segredos.

Continuou naquela brincadeira, naquele jogo de conhecimento mútuo, o resto do dia, enquanto José trabalhava, e sentiu-se bem, sentiu algo parecido com felicidade, mas muito para além disso. Sentiu-se livre...
sinto-me: fantasia...
música: Nothing in my way - Keane

11
Ago 07
publicado por Andi, às 02:49link do post | comentar | ver comentários (4)

Quando chedou a casa, exausta, mas contente, até se poderia dizer feliz!, deparou-se com a Arminda, a responsável pelos que viviam na Instituição. Os olhos de ambas encontraram-se, avaliando primitivamente os desejos e receios de cada uma, Arminda compreendeu que Fantasia estava radiante, como nunca antes tinha visto, e Fantasia, por sua vez, apercebeu-se que Arminda estava determinada em arrancar-lhe esse prazer, queria que ela Lhe obedecesse, e não fosse rebelde, que simplesmente fosse como todos os outros e não lhe causasse transtornos... Ambiguamente, sabia também, subconscientemente, que por mais que fizesse e tentasse não o conseguiria!

 

 

Arminda, carrancuda e amarga, nem tentou falar com Fantasia, pois não havia linguagem mais explícita do que a da linguagem do olhar... Com uma roupa cinzenta, desgastada, parecendo também Arminda cinzenta e desgastada, mostrou a Fantasia aquilo que ela já esperava e que todos na casa temiam, a velha bengala da fundadora da Instituição. Já deveria ter mais de meio século, mas continuava, como a Instituição, inquebrável, teimosa em fazer-se vingar, maliciosamente persistente, atormentando todos!

 

Fantasia, ciente do que lhe esperava nem se mexeu, nem tão pouco mostrou algum indício de medo, ou de arrependimento, porque na verdade não sentia nada disso! Sentiu o primeiro impacto com mais intensidade, mas agarrou instintivamente o pedaço de metal que encontrara na praia, o seu presente. Nos seguintes minutos pouco ou nada sentiu, não proferiu uma única palavra, nem mexeu um músculo. Também ela se mostrava impenetrável, impertubável e insensível ao que se passava naquele momento, tal como Arminda.

 

 

A velha decidiu parar, o que já sabia interiormente tornou-se súbitamente claro, não conseguiria "quebrar" Fantasia com aquele método. Fantasia não temia a dor física, temia sim outro tipo de dores. Foi então que teve uma ideia que lhe pareceu genial, infalível - fecharia Fantasia num quarto de onde não poderia ver o mar! Como tinha sido estúpida ao não ter pensado nisso antes!!!

 

*

 

 

Escuro, húmido, vazio, estranho.... Era assim que Fantasia sentia que era a divisão onde se encontrava. Já tinha perdido um pouco aquela sensação inebriante, entusiasta, estonteante que sentira, após ter deixado a praia. O escuro, o medo de não poder sair dali, de ser prisioneira sugava-lhe a amálgama de sentimentos efusivos que anteriormente sentira. O único sítio por onde escoava um fio fino, quase imperceptível de luz, era uma pequena janela no lado sul do quarto, e que apenas dava para vislumbrar os canteiros maltratados da casa. Quase entrou em pânico, pois a janela era bastante pequena, e para além do mais estava trancada, pelo exterior... Tentou parti-la com os punhos fechados, mas o vidro era bastante resistente, tinha que arranjar um objecto duro! Desesperada por sair dali, por respirar, por se sentir livre, pensou no mar... Como seri bom ser como o mar! Liberto, sem ter para onde ir, sentir o vento enquanto viaja, sem pressões, a vaguear conforme quisesse.... Nesse momento lembrou-se do seu magnífico presente, e de como ele lhe poderia ser útil naquela situação. Imediatamente, arremessou o dito presente contra a janela, e conseguiu fazer um orifício pequeno, mas suficiente para a sua mão. Rasgou um pouco da sua saia verde, de tecido grosseiro e já um pouco velha e tentou embrulhar a mão no pano, para evitar magoar-se, e meticulosamente, abriu o fecho, e, seguidamente a janela.

 

 

Manchada de sangue, pois magoou-se ao passar pela janela, e nos estilhaços de vidros; suja, esguedelhada, com o pedaço de metal na mão e com um olhar triunfante, poderia parecer uma louca. Estava delirante! Correu, sem pensar na Arminda, nas consequências que teriam a sua fuga, sem pensar em NADA!

sinto-me: liberta

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