Does it make any sense?! No? So, welcome.
17
Fev 08
publicado por Andi, às 17:45link do post | comentar | ver comentários (2)

Sinto-me à deriva há dias... O tempo passa tão depressa, acho que nem chega a passar, não há tempo. Tudo se resume à efemeridade. 

Boiar na superfície turva do mar salgado e rebelde. Sentir nada mais que o movimento das ondas, movermo-nos em sintonia, e fechar os olhos com tanta força que quando os abrirmos a luz será demasiado intensa. Ficar com as mãos enrugadas, como se de velhice ou trabalho fosse repleta a nossa vida. E de um gesto só, levantarmo-nos, e encaminharmo-nos no sentido contrário ao mar, quando o que queremos é não sair de lá. Porque não ficar? Para quê sair se deixamos de nos sentir tão intensamente, como quando flutuamos? O que nos leva a isso? Nem quero pensar nisso. Só espero pela próxima vez que lá me encontrar.

 

 

 

Sinto saudades do mar...E tuas.

sinto-me: ....
música: The fountain - Clint Mansell

27
Jan 08
publicado por Andi, às 16:35link do post | comentar | ver comentários (4)

Acordou com uma carícia húmida do primeiro pingo de chuva que caía do céu já não tão claro, como de manhã, o sol já havia passado, e encontrava-se mergulhado no horizonte, o céu tinha uma tonalidade esquisita, de um azul desmaiado, rosa claro, e cor de fogo. A nuvens adquiriam formatos esquisitos, contudo divertidos. Sabia que seria uma questão de instantes até o céu se fechar numa careta e fazer desaparecer as nuvens feitas de algodão e as cores para se transformar num véu preto. Era um instante fugaz, precioso e irrepetível, e, portanto, decidiu aproveitá-lo.

 

Durou uns escassos segundos a previsão que ela fizera, conhecia bem o céu daquele lugar, sabia-lhe os caprichos e as manias. Continuava a chover, e ela, lentamente se levantou. Estava dorida, doíam-lhe as pernas, as coxas,os pés, os braços, o nariz... Tinha o corpo dormente, mas a chuva que caía miúdinha servia para acordar, lentamente, cada bocadinho de si. Sentir a chuva a cair na sua pele, gota por gota, devagarinho, foi acordando-a do torpor em que se encontrava.

 

Inspirou profundamente, tentando organizar os acontecimentos recentes, e tentando decidir o que faria a seguir, pois estava sem lugar para onde ir, não tinha ninguém a quem recorrer... Estava só.

 

A chuva miúdinha penetrava na terra, misturando-se com esta, consumindo as saudades, e a terrra virgem exalava um odor húmido. Fantasia conseguiu diferenciá-lo quando inspirou durante alguns instantes. Conseguia associar perfeitamente o cheiro àquele lugar, memorizou-o. Gostava dele.

 

A chuva ia caindo com mais intensidade, como se a terra chamasse por ela, pedisse por mais. Deu por si a pensar nessa situação. Ninguém a queria chamar, ninguém esperava pela sua presença, não era a primeira vez que esse pensamento surgia na sua mente. Desde que se lembra que estava sozinha, simplesmente isso não ia mudar agora. Se bem, que no seu

íntimo, ela desejasse que houvesse alguém que esperasse a sua visita, não certa, mas a esperasse, se preparasse para ela, sem nada apenas com esperança.

 

As gotas grossas de chuva que embatiam nas copas frondosas das ávores verdes que ali se encontravam, iam molhando-a, o seu cabelo já se encontrava castanho escuro, por estar molhado, a roupa amarela da Instituição colava-se ao seu corppo, já de mulher, e os pés, começavam a ficar com lama. Lama e sangue. Descalços, tinham algumas feridas que tinham resultado da sua fuga da Instituição.

 

Fuga!! Finalmente tinha escapado. E agora que se encontrava livre tinha tantas opções, que nem sabia por onde iria... Decidiu que seria melhor sair dali, caso não se desse a situação de a irem procurar ali. Pedro vira-a, e ela podia jurar que ele a teria denúnciado mal chegasse à Instituição. Como ele a irritava! Com aquele ar arrogante, de sabe-tudo, e ao mesmo tempo, de distanciamento, de egoísmo, que irritavam igualmente Fantasia.

 

Seguiu lentamente um trilho que havia na mata, tentando absorver tudo o que havia à sua volta, gostaria de ser não uma viajante naquele lugar, mas sim parte do mesmo lugar, poder conhecer as plantas e os animais que por ali se encontravam escondidos ao pormenor, saber-lhes os movimentos, as expressões.... Ia tocando nos troncos velhos e rugosos das árvores, como se tratasse da palma da mão de álguem velho, que se tornara sábio através do labor da vida, um avô talvez... A noite estava escura, apenas vagamente iluminada pela lua em quarto crescente. E Fantasia foi vagueando pela mata.

 

*

Encontrava-se na praia, já estaria a caminhar há muito tempo, pois agora que parara para poder vislumbrar de novo o pôr do sol, como no dia anterior o fizera na mata, os pés doíam-lhe e as feridas ardiam. Mas, enquanto pudesse ter esses momentos de êxtase ao observar tais maravilhas, pouco lhe importava. Ver o mar outra vez, numa tonalidade azul-esverdeada, com laivos de branco da espuma, que ia e vinha uma vez mais molhar a areia, esta que perdoava as brincadeiras daquele menino maroto, consentindo  a sua volta e ida, uma e outra vez.  Avançou, lentamente, enterrando os pés na areia, sentindo os golpes queixarem-se daquele contacto indesejável. Mas foi avançando.  Fria! A água encontrava-se fria. Gostava da sensação que isso lhe transmitia, e foi passando a mão lentamente à superfície da água, como se fosse um animal qualquer à espera de festinhas. A água dava-lhe pela cintura. Nunca antes tinha estado daquela forma no mar, também nunca tinha estado livre como agora... Sentia vontade de se deitar, de descansar, nas não queria abandonar o mar, será que este se importasse que ela se deitasse ali, com ele? Lhe desse a mão e fechasse os olhos, só por um pouquinho?! Enquanto tentava tomar uma decisão, ouviu alguém chamar por si. Virou-se para trás, momentaneamente desperta dos seus devaneios, e viu-o. José, o pescador, esbracejando na praia, como um louco. Não percebia a razão daquele momento de ansiedade. José era um homem do mar, um homem que aprendera a ser paciente face aos caprichos do mar...

 

Chegou ao pé dela, mal podendo respirar, e por entre dois suspiros mais profundos apontou-lhe a sua casa, que ficava a pouca distância da praia. Fantasia não sabia como interpretar aquilo, sentiu-se confusa, cansada e com fome, mas por fim, lá acabou por aceitar o convite, afinal de contas, José era o único em quem podia confiar.

 

Ainda conseguindo ouvir o respirar pesado de José, e já podendo antever alguns pormenores da casa caiada de branco do simples pescador que ficava já a uns meros dez metros, Fantasia reconheceu também uma silhueta que a fez estremecer. Pedro estava ali!

 

Por momentos sentiu-se paralisar, a roupa encharcada, tornara-se pesada, e os pés não respondiam ao que queria... Tinha de sair dali depressa, tinha de conseguir escapar, não fugira da Instituição para ser apanhada daquela forma! Conseguindo,então mover-se, Fantasia conseguiu recuar uns passos, e virar-se, e então, inesperadamente, como algo tivesse accionado na sua mente, alertando-a do verdadeiro perigo, desatou a correr pela praia. José, a quem a reacção repentina de Fantasia não tinha passado desapercebida, agiu também, agarrando-a , antes que ela pudesse, efectivamente fugir.

 

O braço apertou-a, fazendo-a lembrar de Alberto, recordações essas que tentava afastar para um canto recôndito da sua memória, mas que agora ganhavam vivacidade, como se estivessem a ocorrer novamente naquela altura.

"Não vais a lado nenhum."

Disse calmamente o pescador, como se aquilo já fora predestinado antes, decidido sem o consentimento dela.

 

Com os olhos marejados de lágrimas, conseguiu ver Pedro avançando na sua direcção, certamente ostentando um sorriso de vitória e orgulho. Mas não conseguia afirmar com toda a certeza, estava prestes de rebentar de raiva e frustração!!! Como pudera ser tão ingénua a ponto de confiar em alguém que não conhecia, apetecia-lhe bater nele, fazê-lo sentir o mesmo jorro de sangue quente que ela sentira quando Alberto lhe batera, ele não podia devolvê-la à Instituição, morreria se para lá voltasse, ainda que o seu corpo se mantivesse vivo.

 

Pensamentos como este perpassavam-lhe a mente, cada vez mais depressa, aumentando num ritmo alucinante a sua raiva e dor. Sentia a cabeça a latejar, e faltavam-lhe as forças...Pôde ainda ver o sol levantar-se sobre o mar, e iluminar tenuamente a paisagem, antes de cair desmaiada no chão.

 

 

sinto-me: dormente

27
Nov 07
publicado por Andi, às 22:24link do post | comentar | ver comentários (4)

Encaminharam-se então as duas pelo carreiro de pedra batida que ligava a Instituição ao caminho principal. Antecipando a visita ao mercado, Fantasia parecia nem reparar nos pequenos pormenores por que reparava habitualmente quando ali passava. As várias teias de aranha que pendiam dos vários arbustos que ladeavam o caminho, brilhavam sob aquele sol com resquícios estivais, inúmeras ervas daninhas brotavam entre as várias flores silvestres, que por ali desabrochavam. Um momento de fragrâncias, cores que Fantasia sempre presenciava e apreciava quando ali passava, não se deu, não desta vez.

 

O mercado ficava para lá do porto, quase no centro da vila. Filipa, que era bastante mais velha que Fantasia sabia o caminho, embora não o fizesse muitas vezes, mais certo que Fantasia era certo, sabia-o bastante bem, pois ao contrário do que a maior parte das pessoas pensava, ela tinha muito boa memória. Foi calcorreando as ruas apertadas, de calçada, sempre com Fantasia no seu encalço. Não haviam muitas pessoas na rua àquela hora da matina, a maior parte encontrava-se ainda em casa, e preparava-se para ir trabalhar ou ir para a escola. Havia ainda duas ou três tabernas, onde apenas se encontravam os seus clientes mais habituais e madrugadores. A vila, encontrava-se, assim, a acordar lentamente, sem pressas. Feliz por não ter pessoas que a conhecessem ali, que a pudessem olhar  como se soubessem tudo o que ela havera feito, como se soubessem a sua origem, todos os seus defeitos. Sentia-se constantemente assim quando estava na Instituição, mas não ali, nem na praia, enfim, fora da Instituição.

 

Atravessaram ruas e ruelas até pararem em frente a um grande portão de grades pretas, e com um letreiro grande, e já desbotado pelo tempo caprichoso, a dizer "Mercado". Um sorriso leve surgiu nos lábios carnudos e rosados de Fantasia, nunca pensara em vir mais ao mercado, desde pequena.  A lista elaborada por Arminda e com vários produtos inusuais , devido à presença de Alberto, foi retirada da pequena mala que Filipa levava na sua mão. Encaminhou-se então para dentro do portão preto, contudo , ainda antes avisou Fantasia:

"Não te afastes muito, eu faço as compras sozinhas, depois só preciso da tua ajuda para as levar, encontramo-nos aqui dentro de meia hora." 

Fantasia assentiu.

 

Primeiro, os seus olhos tiveram que se habituar à vivacidade de todo aquele local, o reboliço das pessoas, o apregoar dos vendedores, o ar impregnado de tantos sabores que até lhe custava respirar, os vários animais que por ali passavam à procura de alimento, de entre os quais cães e gatos, provavelmente vadios.

Fantasia arrepiou-se quando viu o primeiro gato, grande, cinzento e com uns olhos verdes redondos e brilhantes. Olharam-se mutuamente, o olhar orgulhoso e nunca submisso do gato afastou-se altivamente do olhar de Fantasia, e seguiu em frente. Fantasia segui-o atentamente com o olhar. Não gostava de gatos, era um facto. Mas não encontrava razões convincentes para isso. Irritavam-na, simplesmente. Adiante, encontrou as primeiras barracas montadas pelos comerciantes.  Legumes viçosos regalavam os seus olhos, a mistura confusa de frutas, sementes, vegetais de todas as qualidades, remexidos pelas pessoas que já por ali haveriam passado. Parou por uns instantes tentando vislumbrar todas as pessoas que por ali haviam passado, as suas caras, a sua expressão ao examinar os produtos, os olhares atentos aos preços, todo o passado e história que havia ligado àquela simples pessoa que num certo momento da sua vida apenas queria comprar vegetais por um preço acessível. Em certos momentos era assim que as outras pessoas se resumiam. E ela? Era apenas uma outra pessoa que pensava nas outras, embora o contrário não acontecesse.  Decidiu continuar. Mas imobilizou-se novamente, pois reparara que havia uma rapariga que, com um aspecto alheio a tudo, introduzia os seus compridos dedos no saco de feijões que lá haviam. Mergulhou completamente os dedos, e remexeu-os com um prazer singelo.

 

Sorriu perante aquela cena e prosseguiu. Havia mais adiante um forte cheiro a maresia, aquele cheiro inebriante que acorda qualquer um e que a levava a relembrar o seu passeio com José , o pescador, as vagas do mar, o balançar suave do barco... Foi seguindo a forte fragrância e encontrou uma banca de peixe. Horrorizou-se com os vários peixes mortos expostos em filas, alguns apresentando o ventre esventrado, outros ainda inteiros, mas todos com os olhos vidrados e exalando aquele cheiro característico. Perante aquela deprimente visão, Fantasia virou as costas e começou a afastar-se quando uma voz masculina, no entanto, muito doce a chamava.

"Eh, menina!"

O sotaque era cerrado, e tão característico que Fantasia reconheceu, de imediato, aquela voz. José.

 

Este foi ao seu encontro. Havia alguns dias que não o via, e sentia a sua falta. Falta essa também sentida pelo simples pescador. Aproximando-se dela, disse-lhe:

"Nunca mais apareceste na praia, nem no porto. Fiquei à tua espera, para dar mais alguns passeios no meu barco. O mar também tem estado à tua espera. Tem sentido a tua falta. Vejo nas marés e na espuma suja que ele tem, que tem saudades tuas."

Fantasia baixou o olhar, indicando que tal não lhe havia sido possível. Por seu lado, José que compreendeu imediatamente tentou animá-la com um sorriso meigo e gentil, habitual vê-lo assim.

"Acho que isto te pertence"

Disse ao retirar da sua sacola de lona o búzio que antes lhe tinha dado, e que haviam retirado. E que agora lhe davam novamente.

 

Recebeu o seu búzio nas mãos trémulas e agradeceu com um trémulo sorriso, pois na altura, nem conseguiu agradecer como queria, tal era a satisfação.

 

 

*

Já a noite caía, lenta, densa e escura e assustava-a com  a sua escuridão... Encolheu-se mais um pouco na sua cama e abriu momentaneamente os olhos para vislumbrar o seu búzio antes de adormecer. E relembrou-se, novamente, do som e do cheiro que dele saía e que lhe recordavam o mar...

sinto-me: ...
música: Photograph - Nickleback

12
Ago 07
publicado por Andi, às 14:44link do post | comentar | ver comentários (2)

Seriam aproximadamente 7 horas da madrugada, não sabia bem, estava desorientada, não conseguia orientar-se nem situar-se no tempo nem no espaço.

Correu um bom bocado, antes de chegar ao porto onde se encontravam pequenos barcos de pesca, saloios, rústicos, simples e humildes como os seus propietários.

Havia um pescador a preparar-se para partir para a labuta matinal, árdua, mas prazerosa, quando reparou nela, alta, com um ar traquinas e maroto, infantil, mas ao mesmo tempo havia uma réstia de mulher adulta e experenciada que deixava antever que ela era muito mais madura e vivida do que parecia. Pela sua roupa e pelo seu aspecto ensanguentado, o pescador presumiu que ela fosse da Instituição que ficava a alguns quilómetros da praia. Sim, só podia ser.

Fantasia, com os sentidos em sobressalto, tentando ver, ouvir, ou sentir a menor presença de pessoas ou de perigo, apercebeu-se que alguém a mirava com olhar curioso e incrédulo, sentia-se vigiada, mas não num aspecto maldoso ou pernicioso. Era um olhar de interrogação, de curiosidade, de quase compreensão pelo estado em que ela se encontrava. Então, contra tudo o que ela sentia e detestava nas pessoas decidiu aproximar-se do dito pescador, um pouco nervosa e pouco descontraida, mas a fome que sentia era maior, apertava-a, não a deixava pensar claramente, sentia a boca seca, o corpo torpe e fraco.

O pescador de seu nome, José, era um homem simples, de pouca cultura, de poucos estudos, nem sabia escrever o seu nome, mas percebia algo que nem os mais distintos doutorados percebem, uma linguagem escondida no olhar, nos gestos, uma espécie de código secreto que as pessoas têm... Pegou na sua sacola puída pelo tempo e pelo uso e tirou metade do seu almoço, e, imediatamente, estendeu-o no seu barco. Quando Fantasia se aproximou dele, ele não disse nada, apenas fez um gesto para o barco, ela percebeu pelos seus olhos, pelos seu modo de estar e de agir, que ele era uma pessoa inofensiva e pacífica, que apenas pretendia ajudar.

Saltou então para dentro do barco, cuidadosa, mas ainda com vigor, pois apesar de tudo era jovem e forte. Começou a comer ferozmente, tal era a fome que tinha. Quando acabou de comer, já refeita e saciada, e sentindo-se mais segura, é que reparou que o pesacdor não se tinha limitado a dar-lhe de comer, tinha-a levado no seu barco para a pesca também! De súbito, sentiu uma onda de pânico percorrer-lhe o corpo cansado, mas alerta, ficou com calor, e começou a respirar pesadamente. Nunca tinha andado de barco, nem tão pouco estado tão perto de tanto mar! Fechou os olhos e tentou não sentir as ondulações que se esbatiam contra o barco, que pareciam querer tragá-lo só de uma vez. José sentiu o seu medo, e parou de remar para que Fantasia não se assustasse mais, e esperou, esperou que ela tomasse coragem e abrisse os olhos, que reparasse na forma como o mar lhes dava as boas-vindas, este reflectia a luz ainda ténue do sol, e estava calmo...

Agarrou o seu búzio, o seu presente, que apesar de ser de metal, ela considerou ser uma espécie de búzios muito rara e especial, e abriu os olhos, lentamente. Sabia que o mar era seu amigo, mas não deixava de ter medo da sua imensidão, do seu poder e força. O que viu, fê-la esquecer o medo que sentira, a dor, o medo da ser prisioneira, fê-la esquecer que havia Instituição, de que Arminda estaria fula, nada... Não havia nada mais, apenas ela e o mar, e o céu límpido e claro, com o sol a despontar, o mar adquiria uma tonalidade esverdeada e permitia-lhe observar os animais que nele habitavam... Estava maravilhada, nunca pensou que o mar não tivesse fim, e olhou para trás e viu a costa, a praia, as casas, muito distantes, diminutas, insignificantes, sentiu-se dona de si, imponente, ela mesma! Pela primeira vez em algumas semanas falou espontaneamente, e disse apenas "Fantasia!"...

O pescador sorriu levemente de satisfação, já começava a gostar dela, da rapariga misteriosa, que parecia gostar de viver, de apreciar as coisas simples da vida, e decidiu continuar a remar. A rapariga abriu os olhos perante tal espectáculo; luxuriante, inebriante e excitante era aquele sentimento, que não conseguiu definir. Mas não se importou de deifinir, seja o que for, não sentia essa necessidade...O barco, apesar de pequeno, era conduzido velozmente pelas mãos experientes de José. Dividia o mar em dois, cortava as ondas em dois, parecia uma corrida entre o barco e o mar. Pôs a mão na água e sentiu. Sentiu o mar, veloz, fugidio, suave, e inatingível. Gostava daquela sensação, estava de mãos dadas com o mar, e eram amigos. Brincou com ele, acariciou-o e disse-lhe os seus desejos e segredos.

Continuou naquela brincadeira, naquele jogo de conhecimento mútuo, o resto do dia, enquanto José trabalhava, e sentiu-se bem, sentiu algo parecido com felicidade, mas muito para além disso. Sentiu-se livre...
sinto-me: fantasia...
música: Nothing in my way - Keane

11
Ago 07
publicado por Andi, às 02:49link do post | comentar | ver comentários (4)

Quando chedou a casa, exausta, mas contente, até se poderia dizer feliz!, deparou-se com a Arminda, a responsável pelos que viviam na Instituição. Os olhos de ambas encontraram-se, avaliando primitivamente os desejos e receios de cada uma, Arminda compreendeu que Fantasia estava radiante, como nunca antes tinha visto, e Fantasia, por sua vez, apercebeu-se que Arminda estava determinada em arrancar-lhe esse prazer, queria que ela Lhe obedecesse, e não fosse rebelde, que simplesmente fosse como todos os outros e não lhe causasse transtornos... Ambiguamente, sabia também, subconscientemente, que por mais que fizesse e tentasse não o conseguiria!

 

 

Arminda, carrancuda e amarga, nem tentou falar com Fantasia, pois não havia linguagem mais explícita do que a da linguagem do olhar... Com uma roupa cinzenta, desgastada, parecendo também Arminda cinzenta e desgastada, mostrou a Fantasia aquilo que ela já esperava e que todos na casa temiam, a velha bengala da fundadora da Instituição. Já deveria ter mais de meio século, mas continuava, como a Instituição, inquebrável, teimosa em fazer-se vingar, maliciosamente persistente, atormentando todos!

 

Fantasia, ciente do que lhe esperava nem se mexeu, nem tão pouco mostrou algum indício de medo, ou de arrependimento, porque na verdade não sentia nada disso! Sentiu o primeiro impacto com mais intensidade, mas agarrou instintivamente o pedaço de metal que encontrara na praia, o seu presente. Nos seguintes minutos pouco ou nada sentiu, não proferiu uma única palavra, nem mexeu um músculo. Também ela se mostrava impenetrável, impertubável e insensível ao que se passava naquele momento, tal como Arminda.

 

 

A velha decidiu parar, o que já sabia interiormente tornou-se súbitamente claro, não conseguiria "quebrar" Fantasia com aquele método. Fantasia não temia a dor física, temia sim outro tipo de dores. Foi então que teve uma ideia que lhe pareceu genial, infalível - fecharia Fantasia num quarto de onde não poderia ver o mar! Como tinha sido estúpida ao não ter pensado nisso antes!!!

 

*

 

 

Escuro, húmido, vazio, estranho.... Era assim que Fantasia sentia que era a divisão onde se encontrava. Já tinha perdido um pouco aquela sensação inebriante, entusiasta, estonteante que sentira, após ter deixado a praia. O escuro, o medo de não poder sair dali, de ser prisioneira sugava-lhe a amálgama de sentimentos efusivos que anteriormente sentira. O único sítio por onde escoava um fio fino, quase imperceptível de luz, era uma pequena janela no lado sul do quarto, e que apenas dava para vislumbrar os canteiros maltratados da casa. Quase entrou em pânico, pois a janela era bastante pequena, e para além do mais estava trancada, pelo exterior... Tentou parti-la com os punhos fechados, mas o vidro era bastante resistente, tinha que arranjar um objecto duro! Desesperada por sair dali, por respirar, por se sentir livre, pensou no mar... Como seri bom ser como o mar! Liberto, sem ter para onde ir, sentir o vento enquanto viaja, sem pressões, a vaguear conforme quisesse.... Nesse momento lembrou-se do seu magnífico presente, e de como ele lhe poderia ser útil naquela situação. Imediatamente, arremessou o dito presente contra a janela, e conseguiu fazer um orifício pequeno, mas suficiente para a sua mão. Rasgou um pouco da sua saia verde, de tecido grosseiro e já um pouco velha e tentou embrulhar a mão no pano, para evitar magoar-se, e meticulosamente, abriu o fecho, e, seguidamente a janela.

 

 

Manchada de sangue, pois magoou-se ao passar pela janela, e nos estilhaços de vidros; suja, esguedelhada, com o pedaço de metal na mão e com um olhar triunfante, poderia parecer uma louca. Estava delirante! Correu, sem pensar na Arminda, nas consequências que teriam a sua fuga, sem pensar em NADA!

sinto-me: liberta

06
Ago 07
publicado por Andi, às 14:18link do post | comentar | ver comentários (12)

Acordou às seis da madrugada, estremunhada, assustada, com medo... Sentiu algo muito estranho, que não devia estar ali, que não pertencia àquele lugar inóspito e deserto...

 

A casa, como todos lhe chamavam era uma habitação antiga, com altas portas e janelas, pintadas de branco, mas de branco já pouco tinham, pois o tempo havia desgastado a casa e a sua alma... À volta da casa havia um jardim, maltratado, com ervas rebeldes despontando onde havia espaço, e flores já só havia daquelas amarelas, como Fantasia as descrevia, que deixam um gosto amargo quando se trincam...

 

De um salto, saiu da cama, e dirigiu-se para o exterior, para a rua... Não sabia para onde ia, mas os seus pés levavam-na numa direcção exacta, sem vacilar. Passado algum tempo, e com algumas feridas nos pés, pois não havia levado uns chinelos, chegou à praia. E paralisou durante um pouco, em êxtase com o que via, o mar, como uma criança, infantil, vinha ao seu encontro, mas fugia novamente e Fantasia deixou-se ficar, na areia, descalça.  O mar dava-lhe uma sensação de serenidade, de paz, embora ela não o soubesse explicar, o mar transmitia-lhe calma que nunca antes alguem  lhe dera.

 

Portanto, deixou-se ficar, em pé, com os pés enterrados na areia, esperando que o mar se aproximasse mais um pouco, que lhe segredasse algo... Queria que fossem amigos! Não gostava das pessoas, falavam demais, mexiam demais, faziam demais, não sabiam quando esperar! Mas, adorava o mar, à sua maneira, da sua forma...

 

Ficou daquela forma quase o dia todo, sem comer e sem sentir necessidade disso, aliás, não sentia necessidade de coisa alguma. Na Instituição já estavam habituados às suas idas à praia, mas não gostavam que saisse demasiado dali, uma hora ou duas no máximo.... Sabiam que Fantasia acabaria por voltar, mas não deixariam passar em branco esta infracção.

 

Quando já se via o sol a por, vermelho, enorme, juntando-se com o mar e formando uma mistura de tonalidades, a maré trouxe um objecto até aos pés de Fantasia. Pequeno, de metal, disforme, provavelmente uma parcela de algo atirado ao mar. Ao examiná-lo, a rapariga tomou-o como um presente do mar, uma prova de que poderiam ser amigos e que ele tinha gostado da sua companhia. Resolveu então, regressar à casa, e decidiu passar ali outro dia...


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